crônica

O papeleiro e os super-ricos

Rolou na rede a foto de um papeleiro que tinha ou parecia ter participado de uma dessas manifestações contra a Dilma. Na carroça, um cartaz: “Não desisto do Brasil”. Coxinhas se regozijaram – o cartaz seria um tapa no governo. Houve, claro, quem suspeitasse de que o papeleiro tinha levado uns trocados pra ostentar o dito cartaz.

Sou meio lento em matéria de conspirações e propaganda, mas duas coisas me chamaram a atenção. Primeiro, a solidão do papeleiro junto com aquelas pessoas obviamente bem de vida e que pareciam numa festa, fazendo milhares de selfies e usando a camiseta de uma das corporações mais corruptas. Segundo, a extrema ambiguidade da frase do cartaz.

Veja, o papeleiro não tem condições de desistir ou não desistir do Brasil. Ele não tem grana pra fazer as malas e dar o fora. Ele não tem grana nem pra comprar as malas, o que, talvez, não fosse um problema, já que não tem nada pra botar dentro delas.

Mesmo em território brazuca, ele não tem como desistir do Brasil. Ele depende das sobras do Brasil com dinheiro pra sobreviver. Ele pode olhar ao redor e pensar: “Foda-se o Brasil, não vou mexer um dedo por ele”. Mas tem de continuar torcendo pelas sobras. Isso é torcer por um Brasil viável ao menos até o ponto de ter sobras.

Eu compreendo perfeitamente esse papeleiro. Estou quase na mesma situação. Além de não ter dinheiro nem coragem pra ir morar na Dinamarca, por exemplo, o que eu faria com a língua? Eu escrevo em português. Eu nunca vou escrever noutra língua. Eu nunca vou amar outra língua do mesmo modo. Falo do português daqui, de Pindorama. O português de Portugal me é tão estranho quanto o malásio. É tarde pra mim, não posso desistir do Brasil.

Mas os setenta e um mil super-ricos que, segundo relatório da ONU, são os donos do Brasil e os que pagam menos impostos, porque criaram suas leis, poderiam desistir. Eles têm dinheiro pra passagem e poderiam viver bem em lugares civilizados – lugares em que pobres não querem entrar na universidade, nem andar de avião, nem são uma lembrança da escravidão ou do massacre indígena. Vou mais longe, pobres que têm a impudência de querer comer três vezes ao dia. Mas o diabo é que esses super-ricos, mesmo quando vivem longe do Brasil, não desistem dele. Eles são super-ricos porque o Brasil é o que é – e isso já faz um tempinho. Pra dar uma data aproximada: desde as capitanias hereditárias.
 

Ernani Ssó é escritor, vive em Porto Alegre. Colabora com os sites Coletiva Net e Sul21, e agora virou colaborador fixo do Seguinte:

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