3º Neurônio | ideias

O ‘malandro’ e o ‘estudioso’: sete erros nas análises sobre a final da Libertadores

Renato e Abel | Fotos ALEXANDRE VIDAL | Flamengo e CESAR GRECO | Palmeiras

Palmeiras x Flamengo foi uma representação: de um lado, Abel Ferreira, o estudioso; de outro, Renato Portaluppi, o malandro. Nas análises, equívocos, falsas premissas, clubismo e preconceito sobre o que aconteceu no Uruguai. Siga no Seguinte: o jornalista Carlos Guimarães

 

O Palmeiras venceu o Flamengo por 2 a 1 na Final da Libertadores 2021, reacendendo um debate que esteve adormecido por um tempo, mas que voltou à tona com o triunfo de Abel Ferreira sobre Renato Portaluppi e com sua demissão como técnico do Flamengo. Antes de mais nada, é preciso que a gente entenda qual a representação dos dois diante da opinião pública. Abel, o vencedor, representa o estudioso, o tático, associado à modernidade. Renato, o perdedor, tem a imagem do malandro, do que não estuda, associado à “velha guarda”.

Esse debate não é tão novo assim. Porém, desde os 7 a 1, estabeleceram-se esses dois polos que compõem esse cenário pós-moderno de defesa incondicional de uma ideia — as chamadas narrativas. Se por um lado, a derrota brasileira para a Alemanha simbolizou o estudo superando o improviso, por outro, mais, digamos, sintonizado com os tempos atuais, foi o embate entre o que é raiz e o que é Nutella — e nada é mais pós-moderno que isto.

Afinal, foi o que aconteceu no duelo entre os treinadores? Foi a vitória do estudioso contra o malandro? A consagração do Nutella contra o raiz? O predomínio de quem se prepara para um jogo sobre quem acredita apenas na qualidade dos atletas? Para a felicidade de muitos analistas, a narrativa adotada foi a de que a vitória foi do estudo. Para a raiva de defensores de Renato, o jogo nada mais foi que uma retranca contra um time que se propôs a jogar. Acirrando o debate, houve quem dissesse que foi um duelo entre ciência e negacionismo. Foi isso realmente? Este ensaio pretende provocar o leitor a uma reflexão que busca fugir dessa dicotomia que é exterminada em sua origem: foi possível identificar premissas erradas, conceitos equivocados, preconceitos e uma profunda ignorância propagada por quem (supostamente) luta contra a ignorância. Sete erros grotescos nas análises. Tudo em nome da narrativa (ou das narrativas).

 

1 — Abel usa a ciência e Renato a despreza

Primeiro, é preciso entender o conceito de ciência (HOUAISS, 2015, p.211) 

conjunto de conhecimentos sistematizados relativos a um determinado objeto de estudo

noção precisa; consciência

conjunto de conhecimentos práticos, técnicos ou intuitivos

disciplinas voltadas para o estudo sistemático da natureza ou para o cálculo matemático

O Houaiss (idem, p.211) ainda diferencia as ciências humanas das exatas. Ciências humanas são “disciplinas que tratam dos aspectos do homem como indivíduo e como ser social”.

Voltando à premissa, de que Renato “não usa a ciência”, é preciso compreender o conceito original da palavra: “conjunto de conhecimentos sistematizados relativos a um determinado objeto de estudo”. Se Renato dá um treino, por pior que seja, ele está usando a ciência, está aplicando o seu conhecimento sistematizado relativo a um determinado objeto (o jogo). Ciência é, também, o uso de um conhecimento prático ou intuitivo. É quando entra a segunda premissa errada.

 

2 — Abel entende a teoria e Renato é apenas um técnico empírico

David Hume (1711–1776) foi um filósofo britânico e o principal nome da corrente do pensamento empirista. Ele afirma que todo processo de entendimento inicia-se com impressões. Não seria possível desvincular o pensamento das sensações. O autor define que as sensações são as únicas capazes de serem comprovadas. A percepção a partir das nossas sensações é a única realidade que os seres humanos são capazes de conhecer. Essa percepção se dá pela prática, pelo cotidiano, pelo fazer.

Renato é um técnico empírico, portanto, pois ele pratica a atividade, ele realiza, ele faz, ele vive o cotidiano. Desta forma, Abel Ferreira também é. E também são Pep Guardiola, Jurgen Klopp ou Diego Simeone. E foram Telê Santana, Rinus Michels e Enzo Bearzot. Como são o treinador do Princesa do Solimões e do Paris Saint-Germain. E do time da terceira divisão da Tailândia. E do Barcelona. Isto é, todos os treinadores são empíricos. Quem não é empírico? Eu, você e qualquer um que nunca tenha sido treinador efetivamente. Os teóricos que determinaram conceitos para o futebol moderno não são empíricos, mas observaram os fenômenos através dos fatos empíricos. Assim como TODO TREINADOR USA A CIÊNCIA, TODO TREINADOR É EMPÍRICO. SEM EXCEÇÃO.

 

3 — Abel estuda, Renato não

O estudo é a aplicação da inteligência para compreender algo que se desconhece ou de que se tem pouco conhecimento. Quando você pesquisa sobre um adversário e tenta entender o que ele faz em campo, você está estudando. Renato falou em entrevista após o jogo que o Palmeiras apenas se retrancou. Essa foi a sua interpretação a partir do que ele enxergou em campo. O futebol é um fenômeno hermenêutico, ou seja, suscita diversas interpretações. Se a carga de valores e conhecimentos de Renato lhe atribuíram essa interpretação, é porque houve uma análise sobre isto. Se há uma análise, ela é baseada num estudo, numa percepção, numa aplicação intelectual.

O estudo não é somente das teorias que os analistas entendem como base para a compreensão do esporte. Como o futebol é múltiplo — e hermenêutico, plural — , sua visão aplicada é fruto daquilo que ele considera importante analisar. É possível dizer que um sociólogo como Roberto DaMatta, que publicou importantíssimas contribuições sobre a sociologia do esporte, não estuda? Ele não deve saber o que é um jogo de posição, mas tem uma profunda visão sobre os fenômenos do futebol junto à sociedade. É um estudioso do esporte, portanto.

Além disso, há o ensinamento prático (oi, empirismo), que é aquilo que Renato absorveu com o cotidiano e com os treinadores que trabalharam com ele. Isso também é estudo, não é somente ler o Martín Perarnau.

 

4 — A vitória do Palmeiras é a vitória do futebol; a vitória do Palmeiras é a derrota do futebol

Esse debate é o mesmo que consagrou os programas televisivos nos anos 1990 e que é retomado com a embalagem de reativo x propositivo. Parece-me que os analistas se preocupam muito com as causas e pouco com os efeitos. Fala-se pouco nos efeitos no futebol. A razão de existir do esporte, que é uma competição, é a conquista. Quem trabalha no esporte, mira o título. Para preparar uma equipe para um campeonato, busca-se entender qual o melhor método — meio — de conquistar esse título.

O Palmeiras, que joga um futebol reativo, com menos posse de bola, forte sistema defensivo, bolas longas e contra-ataques, tem, em 2021, dois títulos da Libertadores e um da Copa do Brasil. É o time mais vencedor do ano. O efeito foi esse: o time ganhou. Ao analista, cabe, evidentemente, entender as razões disso. O erro está em julgar um método como “jogar bola” e o outro como “se defender”. É como colocar jogo versus antijogo. Ora, onde está o antijogo em optar por uma estratégia defensiva, partindo em transição? Se esse método é vencedor, ele precisa ser preservado e respeitado.

O futebol não é estático, muda rapidamente. É um processo dinâmico, com um calendário extenso e mais complexo do que se imagina. Não existe vitória ou derrota do futebol. Isso parece com aqueles debates acadêmico-filosóficos que a turma purista da imprensa nacional travava em nome de uma preferência por um jogo “ofensivo”. Não existe jogar e não jogar. Tudo ali foi jogo, cada um com a sua estratégia.

 

5 — Renato é um personagem que faz mal ao futebol

É preciso separar o personagem do treinador. Por que Renato faz mal ao futebol na opinião de alguns analistas? Porque seu discurso é o do malandro, do praieiro, do bon-vivant, do estilo carioca aparentemente descompromissado e “largado”. A análise, neste caso, está sobre o personagem e não sobre o profissional. Lembro que, nos anos 1990, Romário fazia o mesmo e foi o melhor jogador da Copa 94 treinando, correndo e se esforçando. Renato trabalha, mas gosta de praia. Renato treina um time, mas gosta de chope. Qual o problema em ter essa personalidade?

Uma crítica que se faz a Renato é a de que o time de 2016/17 foi montado por Roger. No futebol, é preciso manutenção das coisas. Roger pode ter formado a base, ter idealizado o modelo de jogo, ter sido um pilar importante nessa construção. Mas o cotidiano, o dia-a-dia, a manutenção dos processos, foram de Renato. Só quem trabalha bastante é capaz de fazer o que ele fez. No mais, é só discurso, que parece ser algo mais importante que a prática.

 

6 — Renato representa a velha guarda e Abel é a modernidade

Possivelmente, a premissa mais equivocada, falsa e irritante de todas. A ideia de construir o debate em torno de períodos históricos é, sobretudo, desonesta. Existe algo chamado tempo e espaço que determina o que somos. A sociedade é baseada em referências temporais. Hoje, temos hábitos, costumes e usos que não tínhamos há tempos atrás, seja por avanço tecnológico, transformação social ou variação de ambiente.

O estudo no futebol não começou ontem. As mudanças táticas ao longo da história foram feitas através de muito estudo e muita ciência — na acepção da palavra e não como essa figura de senso comum que os analistas desinformados colocam. A “velha guarda” era estudiosa. Com isso, gerou-se uma tradição, que nada mais é do que uma construção baseada em rotina.

Os deslumbrados inovadores, que chamo carinhosamente de startupeiros da bola, acreditam que com teoria e números, faz-se ciência e modernidade. Boa parte dos revolucionários da bola fazia isso. Ou seja, é também coisa da “velha guarda”. Se Renato representa a “velha guarda” por não ser este estudioso, que supostamente apenas os novos tempos pedem (sic), ele está também um pouco desconectado em relação ao que os antigos faziam.

 

7— Renato é paizão, Abel treinador

Assisti a uma entrevista com Rony, atacante do Palmeiras, muito interessante. Ele disse que o segredo do grupo é a união, estimulada por Abel Ferreira. Uma vez, um bom homem me disse que o segredo para o sucesso de qualquer coisa é fazer isso com as pessoas que você gosta. Não à toa, vemos projetos fracassar com gente talentosa e que não se dá bem. Esse papel de Abel Ferreira é essencialmente pedagógico. Renato, no Grêmio, muitas vezes falou com pais de jogadores e tratou de lidar com problemas pessoais dos atletas para que melhorasse o rendimento. Igualmente, um papel pedagógico.

Abel, portanto, motivou o time do Palmeiras, com discurso, formas e conteúdos que definiram o estado anímico da equipe. Foi, como costumamos chamar no meio do futebol, também um paizão. É papel fundamental do bom treinador motivar seus comandados. Veja, por exemplo, o que Gabriel Jesus fala sobre Guardiola. Futebol não é apenas tática, é também um estado de espírito. Renato, o paizão, fez nada mais do que qualquer bom treinador precisa fazer. Como Abel fez.

 

Considerações finais

 

Os erros apontados foram de premissa, pois há uma livre interpretação para analisar o que ocorreu na final da Libertadores. Porém, estas devem ter como ponto de partida conceitos corretos sobre as coisas. É IMPOSSÍVEL um treinador não usar a ciência; NÃO EXISTE treinador empírico e não-empírico; TODO TREINADOR estuda; TUDO é estratégia e não jogo ou antijogo; FUTEBOL é uma representação plural de personagens e nenhum deles faz mal ao jogo; NADA DISSO é novo e o contrário, velho; TODO TREINADOR é um motivador por essência.

Podemos criticar, com essas interpretações, considerando as preferências de cada analista, os MODOS, as APLICAÇÕES, os PROCESSOS, os PROCEDIMENTOS, as COMPETÊNCIAS, as PRÁTICAS. Mas não podemos criticar com premissas erradas, preconceitos preestabelecidos, estereótipos criados. Abel foi muito mais treinador que Renato nesta final, mas por estratégia, competência, gabarito, qualidade, contexto, leitura, trabalho, a forma com que estudou, a forma com que aplicou a ciência, se é uma utilização correta, se foi um estudo compatível, se o profissional está atualizado. Mas não por “estudar mais”, “ser mais moderno” (que não significa ser atualizado ou não, diga-se de passagem) ou “usar a ciência”.

É preciso entender, principalmente, o que são ciência, estudo, empirismo, contexto e discurso, sob pena de essa nova geração estar se encaminhando para ser a mais preconceituosa da história da imprensa nacional. Há algum tempo, houve um episódio em que esses analistas condenavam a cultura e a mística, quando um profissional apelou para o uso do sal grosso numa meta defendida por seu goleiro. A ignorância sobre o misticismo do esporte foi grande, além de uma incrível arrogância nas análises. Ainda há tempo para mudar (palpite do escritor: não vão). Por enquanto, eles são apenas a geração mais arrogante da história da imprensa nacional. Falta só um tantinho para essa arrogância virar preconceito.

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