3º Neurônio | ideias

Em que momento cai a máscara de Moro?

Sérgio Moro | Foto MARCO CORRÊA | PR

O ex-juiz nadando na política se tornou de repente um enigma que parece difícil de decifrar, e é aí que reside sua força e ao mesmo tempo sua fraqueza. O Seguinte: reproduz o artigo de Juan Arias, publicado pelo El País

 

Há uma foto emblemática em que Moro, quando ministro da Justiça de Bolsonaro, aparece de pé diante do presidente, com a cabeça inclinada, enquanto este faz com os dedos seu típico gesto de disparar um revólver. Desde então, muita água passou sob a ponte, e hoje o ex-ministro de Bolsonaro repentinamente se transformou e começa a aparecer, ao aterrissar na política, como um alienígena, um robô de última geração e cheio de incógnitas.

No campo da inteligência artificial e dos algoritmos, tudo parece possível hoje em dia, inclusive que o celular escrutine sua vida mesmo desligado. Somos espionados por robôs até quando dormimos. Dizem que nossos pensamentos já podem ser lidos.

Jules Verne ficou antiquado com suas profecias, que no seu tempo pareciam puras alucinações.

Hoje, a ciência do artificial parece não ter limites. E dizem os especialistas que novos assombros ainda estão em gestação. Um amigo me dizia brincando que chegará um dia em que, como os antigos iam às pitonisas para decifrar seus enigmas e hoje se vai aos psicanalistas para que interpretem nossos sonhos, amanhã serão os robôs com seus algoritmos quem nos dirão quem eu sou de verdade e que segredos escondemos.

Tudo isso para dizer que, talvez sem sabê-lo, esse personagem frio, triste, severo e enigmático, o ex-juiz Sergio Moro, que repentinamente se jogou de paraquedas no mar agitado da política que lhe era desconhecido, pode parecer mais um alienígena que um simples humano.

Daí que surpreenda, atraia e cause rejeição ao mesmo tempo. Trata-se de um fenômeno ainda sem decifrar, que começa a criar ao mesmo tempo surpresa, admiração, repulsa e medo. Se suas palavras fossem analisadas científica e semanticamente, descobriríamos por exemplo que parecem não dizer nada de novo, e que talvez por isso às vezes surpreendam. E o paradoxo é que justamente há quem pense que na obviedade de sua linguagem se encerra algum significado oculto que os simples mortais não alcançam compreender.

Moro nadando na política se tornou de repente um enigma que parece difícil de decifrar, e é aí que reside sua força e ao mesmo tempo sua fraqueza. Nesse nada que talvez seja em sua aventura política ao lado dos velhos e especialistas na matéria, ele poderia acabar aparecendo como alguém diferente, com mensagens novas, mas indecifráveis para a política tradicional.

Às vezes, a estranheza e até o assombro causados por algumas de suas afirmações aparentemente insignificantes –mas sobre as quais há quem imagine algum sentido oculto– podem induzir ao erro. Uma vez criado o mito e sua auréola de algo diferente e superior, é fácil render-se ao seu fascínio. Moro, de fato, pode aparecer para muitos como um ser frio, capaz inclusive de infundir medo e atração ao mesmo tempo.

Quando seu sorriso nos parece forçado, quando seus gestos parecem mecânicos, ou quando suas palavras de tão óbvias poderiam recordar um robô dirigido à distância, a consequência é que justamente por isso pode chegar a parecer como algo novo e diferente, que não conseguimos entender. Daí à glorificação é um passo. Como pô-lo à prova para decifrar sua verdadeira personalidade e suas reais chances de ganhar uma das eleições mais problemáticas, difíceis e perigosas das últimas décadas?

Essa prova do fogo para saber se estamos diante de um robô ou um candidato de carne e osso nos será oferecida nos debates que Moro deverá travar cara a cara com Lula ou Bolsonaro, os quais serão, com toda probabilidade segundo as pesquisas, seus dois grandes adversários.

Será nesse momento quando as máscaras cairão e poderemos decifrar o enigma.

Se Bolsonaro nas eleições passadas não tivesse se refugiado no atentado que sofreu para evitar esse cara a cara entre os candidatos, que é onde aparecem humanos ou robôs, hoje o Brasil provavelmente seria diferente, menos desesperançado, menos pobre, mais livre e menos envergonhado da imagem que seu presidente projetou dentro e fora do país. Infelizmente o capitão não era um robô. É de carne e osso, e por isso mais perigoso e capaz de arrastar o país para um clima de guerra, ódios e desesperança de tempos menos sombrios.

Lula e Bolsonaro, embora ambos nos antípodas da ideologia, são tudo menos robôs e alienígenas. Todos sabemos o que pensam e querem e o tipo de país que representam, para o bem ou para o mal. Um prêmio, entretanto, para quem for capaz de decifrar a incógnita do ex-juiz impassível metamorfoseado em político.

Não há dúvida a esta altura que o verdadeiro enfrentamento nas eleições se dará entre a tríade Lula, Bolsonaro e Moro, os únicos aspirantes que hoje são conhecidos até pelos menos cultos e pelos mais pobres. Todos os outros candidatos da procissão de aspirantes da terceira via aparecem no momento mais como fantasmas para a grande massa dos milhões de eleitores.

Logo o ringue estará armado, e lá aparecerá a verdadeira personalidade e força política da tríade que desta vez disputará algo mais que umas simples eleições.

Tudo isso se antes o mago Lula não puser ponto final à luta com um triunfo já no primeiro turno, algo que já começa a se desenhar como possível, caso Bolsonaro não consiga ressuscitar dessa fraqueza crônica com que hoje aparece nas pesquisas.

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