50 anos ontem

Desmitificando Kurt Cobain

Kurt Cobain em cena do documentário, que reúne imagens do baú de memória dele e da família

Kurt Cobain teria completado 50 anos nesta segunda-feira, não tivesse se suicidado aos 27 anos. O Seguinte: reproduz a reportagem do El País sobre um documentário definitivo sobre o 'John Lennon' do grunge: 'Cobain, Montage of heck', que você encontra no Netflix

 

O mito nasceu na manhã de 5 de abril de 1994, depois que aquele cara de 27 anos, cabeleira loira e um sedutor olhar ausente deu um tiro na cabeça e seu cadáver foi encontrado por um eletricista. O suicídio de Kurt Cobain comoveu o mundo do rock, convertendo-se em um rápido e trágico epitáfio para a geração grunge, que, como assinalou no mesmo dia da morte o jornalista da Rolling Stone David Fricke, perdia “seu John Lennon”. Mais de duas décadas depois, o diretor Brett Morgen desmitifica o líder do Nirvana em Cobain: Montage of heck, o primeiro documentário autorizado pela família, que estreou nesta semana na Espanha.

– Acredito que o filme põe em dúvida o que as pessoas pensam dele – diz durante uma entrevista em um hotel da praça Santa Ana, em Madri.

O filme, que foi apresentado na última edição da Berlinale e do Festival Sundance, mostra como nunca antes a intimidade de Kurt Cobain, rastreando inclusive sua infância e adolescência. Tudo isso graças ao fato de que Courtney Love, viúva do cantor, deu a Morgen a chave de um cofre ciosamente fechado durante anos. Um cofre com um tesouro formado por dezenas de filmes super-8 e vídeos em VHS, mais de 4.000 páginas de escritos, ideias e passagens do diário do cantor e 200 horas de áudio de gravações pessoais, muitas delas inéditas.

– Ao examinar todo o material, encontrei dois caras: o personagem público e a pessoa. E eu só estava interessado em conhecer a experiência de vida da pessoa – explica Morgen, que tomou o título do documentário de uma fita cassete gravada por Cobain em 1988, na qual estão versões de canções de Frank Zappa, Black Fag, Beatles ou Cher.

– Não há suposições, mas elementos de sua vida. Acredito que o filme está perto de encontrar o verdadeiro Kurt – afirma.

 

Assista ao trailer oficial do filme

 

Mas quem era o verdadeiro Kurt? Segundo Montage of heck, mais do que deus do grunge perturbado com a fama e rendido à espiral da heroína, havia muitíssimas arestas existenciais que mostravam, nas palavras de Morgen, um “homem terrivelmente complexo”. As primeiras imagens caseiras revelam um menino tímido, que faz desenhos alegres e não se separa de seu violão de brinquedo, mas que acaba se tornando um adolescente marcado pelo rechaço. Um garoto que sofre a separação dos pais e em seguida, ao acabar na casa do pai porque a mãe não se ocupava dele, não pode conviver com os meios-irmãos e vai viver com os avós durante uma longa temporada. Além disso, a mãe tentou frear sua hiperatividade com remédios e no dia em que ele lhe mostrou uma de suas canções ela o aconselhou a se dedicar a outra coisa porque não entendia sua música.

Tracey Marander, seu primeiro amor, explica que Cobain “odiava ser humilhado”. Com animações muito bem-feitas que retratam sua adolescência, tudo isso fica refletido em uma longa gravação do próprio Cobain em que fala de como quis perder a virgindade com “uma garota muito gorda” que frequentava cursos de educação especial. Seus amigos o humilharam quando ficaram sabendo. A mesma voz que cantava Smells like teen spirit conta o que sentiu:

– Não podia suportar bancar o ridículo. Droguei-me, embriaguei-me e fui caminhando até a linha do trem, esperando ser destroçado.

– Ele fazia música para sentir que não estava sozinho – reconhece sua irmã Kim no documentário.

Com sua impecável tensão elétrica e seus modos de inspiração punk, o Nirvana captou o desengano e a frustração existenciais de boa parte dos adolescentes dos anos noventa, perdidos entre a abundância e o consumo de drogas. Krist Novoselic, baixista do Nirvana e amigo de juventude, reconhece que “as drogas eram parte da equação”. E em um dado momento também foi Courtney Love, mais drogada do que ele e que aparece em várias gravações como num vídeo com os dois drogados em plena gravidez dela.

Morgen não a vê como a vilã do filme, embora tampouco a defenda. Simplesmente, como diz, “Cobain batalhava diariamente com a intenção de ser feliz”. E a própria Love reconhece que o músico se sentiu “terrivelmente traído” por ela quando confessou que queria ser infiel a ele. Foi sua primeira tentativa de suicido com uma overdose, em Roma, em março de 1994. Pouco depois, consumou-se em 5 de abril, quando surgiu o mito. E convém enfatizar: em 2006, Cobain chegou a liderar a lista de artistas mortos com mais rendimentos anuais feita pela revista Forbes, à frente inclusive de Elvis Presley, embora O Rei tenha voltado a dominar essa classificação nas edições seguintes, enquanto se fizeram outros documentários como o medonho Quem matou Kurt Cobain?, que lançava intrigas sobre sua morte.

Conta a história que aquele eletricista que encontrou o cadáver não sabia quem era Kurt Cobain. Possivelmente, no fundo, ninguém soubesse. Nem ele mesmo, que deixou os rastros de sua pessoa solitária e excessivamente frágil pulverizados em suas canções, mas também em sua vida, que Cobain: Montage of heck recolhe como nunca foi feito antes.

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