3° Neurônio | fábula

A caipira sonhadora | João Carlos Pacheco

Fábula da Caipira Sonhadora

Aquela era uma franguinha sonhadora: queria porque queria ser a top model das franguinhas caipiras. E fazia tudo pra isso.

Ginástica para afinar os quadris, corridas para modelar as coxas, dieta para não criar pneus na barriga, tudo. Milho e ração, nem pensar. Só comia folhas verdes e lá de vez em quando um pouquinho de quirela. Botar ovo? Tá maluco. Isso era coisa pras caipiras antiquadas, gordas e horrorosas. 

As outras galinhas não entendiam as atitudes daquela franguinha metida a besta.

– Magricela metida – diziam.

– O que ela está pensando que é?

Só uma velha poedeira carijó tinha paciência com a caipirinha sonhadora e dizia:

– Cuidado, minha filha! Isso pode acabar mal!

Mas a franguinha não ligava.

– Que nada. Ainda farei muito sucesso nas passarelas do mundo. Quem viver verá!.. –  retrucava ela empinando o peito.

Aliás, o peito era o que a caipirinha mais cuidava. Pendurava-se horas e horas no poleiro com a cabeça pra baixo pra ficar com o peito grande:

– Peito duplo! Já ouviram falar? É a última moda nos Estados Unidos – falava ela.

E assim vivia a magricela: sonhando. Quando surgiu a moda da minissaia foi a primeira a raspar as penas das coxas. Um dia descobriu que na França faziam sucesso umas do pescoço pelado. Não teve dúvida: raspou as penas do pescoço também.

O dono da granja não ligava pra loucuras da caipirinha metida. Achava até graça:

– Esta franguinha deve ser louca! – dizia.

– Não pode ver bacia com água que corre logo pra se olhar. Deve se achar muito linda!…

E era isso mesmo. A caipirinha passava horas e horas se olhando no espelho da água das bacias que serviam de cochos.

Um dia apareceu na granja um quitandeiro da cidade a procura de ovos caipiras, botou os olhos na franguinha metida a besta e se encantou:

– Uma Label Rouge! Que maravilha!  Não vim pra levar galinhas, mas esta  vou levar… Chamou  o dono da granja e mandou pegá-la.

– Qual? A do pescoço pelado?  Isto não presta pra nada, nem ovo bota. Não me leve a mal, mas o senhor vai levar a pior de todas. Tenho outras muito melhores – alertou o dono da granja.

– Que nada, amigo. É uma Label  Rouge, raça francesa. Você nem imagina que carne mais macia e  saborosa. Tem gosto de caça. Olha só que peito, que pernas. Imagine assadas! Na Europa é só  o que se come. Vou levá-la. Pode pegá-la e juntar com os ovos que escolhi…

E assim foi. Num rápido corre-corre, a  caipirinha sonhadora foi pega e lá se foi ela esperneando, não para  o sucesso das passarelas  do mundo, mas para panela do quitandeiro.

Moral: Quem muito imita o estrangeiro, perde a vaga no poleiro!

 

João Carlos Pacheco é publicitário e humorista, vive em Porto Alegre. Participou da antologia de humor QI 14, de 1975. Para nosso prazer e do leitor, o Seguinte: passa a publicar uma série de suas fábulas, inéditas.

 

 

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