3º Neurônio | ideias

Rotina das execuções na fronteira paraguaia turbina a violência no Brasil

Há uma década e alguns meses corria uma piada entre nos repórteres de grandes jornais sobre a fronteira do Brasil com o Paraguai. Dizia-se que havia mais jornalistas por lá em busca de histórias do que agentes da Polícia Federal (PF) brasileira e da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), do Paraguai. Um exagero, é claro. Mas o fato é que andar por aquela região sempre rendia boas reportagens especiais, porque os crimes praticados na fronteira repercutiam no índice de violência das grandes cidades do Brasil. Por quê? Simples: as quadrilhas brasileiras se abasteciam na fronteira de armas, munição, maconha, cocaína, cigarros piratas e material de informática. Em troca dessas mercadorias, pagavam os bandidos paraguaios usando como moeda bens roubados ou furtados no Brasil, como carros, aviões (pequenos), ouro e outros objetos de valor. Os jornais do Rio Grande do Sul tinham um interesse muito especial na região porque toda a fronteira e parte do território paraguaio foi povoada por gaúchos e seus descendentes do oeste catarinense e paranaense.

Muitas quadrilhas foram derrubadas na região graças à ação da imprensa. Os repórteres dos grandes jornais, incluindo os do Sul do Brasil, desapareceram da fronteira na última década, quando se instalou a crise econômica nas empresas de comunicação devido a fuga de assinantes e anunciantes para outras plataformas de comunicação. Resolveram o problema enxugando os custos com demissões em massa de jornalistas e cortando de maneira radical as viagens dos repórteres. A ausência de repórteres dos grandes centros do país jogou a cobertura no colo da imprensa local. Antes de seguir contando a história. Vou fazer um comentário que julgo necessário, principalmente para os jovens colegas que estão enveredando pelo caminho do jornalismo investigativo. É o seguinte: uma coisa é o repórter ir a uma região povoada por bandos de criminosos infiltrados na máquina administrativa dos municípios, como é a fronteira com o Paraguai, fazer a sua matéria e ir embora. Outra coisa é fazer uma matéria morando no lugar. Na época que eu fazia matérias por lá existia entre os repórteres um manual não escrito de segurança. Uma das regras era: não se hospedar em hotéis localizados na região de apuração da matéria. Com isso, evitava-se surpresas como a de ter a bagagem remexida em busca de informações a respeito da reportagem que está sendo feita. Voltando à história. A ausência dos repórteres dos grandes jornais na fronteira Brasil-Paraguai atirou o problema no colo da imprensa da região. O que resultou em um aumento do número de mortes de jornalistas locais por quadrilheiros, como foi o caso do repórter Léo Vera, executado em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida de Ponta Porã, município do oeste do Mato Grosso do Sul.

Nos dias atuais as notícias que são publicadas no Brasil sobre a violência da região, como foi o caso da execução de quatro jovens, entre eles Hailé Acevedo, filha de Ronaldo Acevedo, governador do departamento (estado) de Amambay, são apuradas em fontes oficiais e em conversas com repórteres locais que conhecem a realidade. Conheço muito bem a região e por minha conta própria continuo circulando por lá de dois em dois anos. A última vez foi em 2019. Estou investindo na atualização do meu livro País-Bandido, que publiquei em 2003, sobre as quadrilhas e o modo de vida dos moradores da região. O pano de fundo dessa escalada  de execuções é consequência de um enfrentamento entre as facções brasileiras que se instalaram lá no final dos anos 90 e desde então travam uma guerra contra as quadrilhas locais, que têm ramificações antigas e importantes no governo do Paraguai. Entre as facções destaca-se o Primeiro Comando da Capital (PCC), nascido em São Paulo. O PCC tem contato direto com os cartéis produtores de cocaína na Colômbia, Peru e Bolívia. Ele compra a droga nesses países, armazena no território paraguaio e de lá distribui para o mercado brasileiro ou utiliza o Brasil como corredor para abastecer os Estados Unidos e países europeus. Se nada for feito, em poucos anos o PCC vai ser o primeiro cartel brasileiro ao estilo dos mexicanos que dominam a fronteira do México com os Estados Unidos.

Ouvi uma história de um colega repórter que mora em Assunção e tem o meu respeito por ter uma longa ficha de serviços prestados ao bom jornalismo. Ele me disse que um dos fatores da escalada do número de execuções na fronteira com o Brasil, em especial nas cidades de Pedro Juan Caballero e Capitán Bado, tem a ver com o fato de que as facções criminosas brasileiras estão anexando aquela parte do território paraguaio ao Brasil. Anexando, perguntei? Ele respondeu: “No  sentido de substituir as autoridades paraguaias da região comprometidas com as quadrilhas locais por pessoas de confiança deles.”  Na semana passada (13/10), as autoridades paraguaias e brasileiras lançaram na região a Operação Soberania, que tem como objetivo combater o crime organizado no departamento de Amambay. É mais uma das tantas operações lançadas na região que desaparecem em pouco tempo deixado um rastro de resultados insignificantes. Como as coisas funcionam por lá? Os bons policiais brasileiros e paraguaios têm um acordo de cooperação não oficial entre eles que resulta na solução de muitos casos. E até certo ponto é um freio na expansão das facções. Mas os maus policiais brasileiros e paraguaios também têm o seu acordo para facilitar a ação dos bandidos. É assim que funciona por lá. É assim que as coisas funcionam nas fronteiras pelo mundo afora. Não é diferente na fronteira dos Estados Unidos com o México. Também não é por outro motivo que as reportagens que se fazem nessas regiões têm um grande interesse dos leitores.

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