crise do coronavírus

Pílulas mortais?: 70 mil comprimidos do ’kit covid’ podem ter sido vendidos em Gravataí; O Sol é que gira

Farmácias brasileiras venderam mais de 52 milhões de comprimidos de quatro medicamentos do chamado “kit covid” em um ano de pandemia: sulfato de hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e nitazoxanida. Em uma conta de padaria, é possível projetar que mais de 70 mil comprimidos foram comercializados em Gravataí.

Na fórmula uso uma proporção que leva em conta do município mais populoso, São Paulo, com 12 milhões de habitantes, até o com o menor número de moradores, Serra da Saudade (MG), com 776. Gravataí tem 271 mil. Como a evidência é de que o medicamento circula mais nas maiores cidades, a disseminação pode ser ainda maior entre os 211 milhões de brasileiros.

Segundo levantamento exclusivo da Agência Pública, na reportagem Farmácias venderam mais de 52 milhões de comprimidos do “kit covid” na pandemia, de Bianca Muniz e Bruno Fonseca, foram vendidos mais de 6,6 milhões de frascos e caixas desses quatro remédios de março de 2020 a março de 2021.

Os números representam apenas as vendas desses medicamentos em farmácias privadas, isto é, não incluem o que foi aplicado em hospitais ou dispensado em postos do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Gravataí é ‘território livre’ da cloroquina na rede pública. A medicação não é fornecida gratuitamente na Farmácia Municipal, como já tratei em artigos como ’Kit covid’: O risco da incompreensão do ’tratamento precoce’ em GravataíGravataí não comprou cloroquina ou kit de tratamento precoce; Responsabilidade é de médicos e pacientesDr. Levi quer cloroquina no Hospital de Campanha de Gravataí; A tímida vacina e Vereador de Gravataí luta pela vida: colega ’medicou-o’; Parem com curandeirismo, por favor!.

De acordo com o levantamento da Pública, dentre os quatro medicamentos, o que teve mais comprimidos vendidos foi a hidroxicloroquina — que o presidente Bolsonaro anunciou tomar quando foi diagnosticado com covid-19. Foram mais de 32 milhões de comprimidos vendidos desde março de 2020, um total de 1,3 milhão de caixas.

A reportagem traz informações que serão alvo da ‘CPI da Pandemia’, que começa a funcionar na próxima semana no Congresso Nacional.

A Sanofi Medley é a única empresa estrangeira autorizada a comercializar a hidroxicloroquina no país. A farmacêutica francesa tem como acionista o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu o medicamento no combate ao coronavírus.

A EMS, do Grupo NC, é a única a produzir os quatro medicamentos. O presidente do grupo, Carlos Sanchez, é apontado como um dos 30 bilionários do país no levantamento da Revista Forbes e, segundo reportagem, esteve presente no jantar em que Bolsonaro se reuniu com empresários, no dia 7 de abril, em São Paulo.

CLIQUE AQUI para ver os gráficos detalhados da venda de cada um dos ‘pacotinhos de ilusão’, como descreve Margareth Dalcomo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das pesquisadoras mais reconhecidas do Brasil.

Vamos aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos, mas entender o problema do curandeirismo.

Desde o fim de março de 2020, a hidroxicloroquina entrou para a lista de medicamentos sujeitos a controle especial, junto à cloroquina, por decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foi essa mudança na classificação que permitiu contabilizar a venda de hidroxicloroquina nessa base de substâncias.

A própria Anvisa reconheceu que a inclusão dos medicamentos na categoria tinha o objetivo de “coibir a compra indiscriminada de medicamentos” devido à pandemia, embora já tivesse alertado à época que “não existam estudos conclusivos sobre o uso desses fármacos para o tratamento da covid-19”. A bula da hidroxicloroquina prevê que ela seja utilizada para tratar malária ou certas doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide. 

Conforme a Pública, em segundo lugar nas vendas, a azitromicina, um antibiótico, teve mais de 13 milhões de comprimidos vendidos em farmácias brasileiras no mesmo período — mais de 3 milhões de caixas. Diferentemente da hidroxicloroquina, a azitromicina já estava no grupo de medicamentos sob controle especial ao menos desde 2010, quando a Anvisa definiu regra para controle de antibióticos.

A venda da azitromicina nas farmácias brasileiras passou de uma média de 711 mil comprimidos por mês em 2019 para 1 milhão ao mês durante a pandemia. O uso previsto da azitromicina em bula é para o tratamento de doenças como bronquite, pneumonia, sinusite e faringite.

Tanto a hidroxicloroquina quanto a azitromicina tiveram o seu pico de vendas em março de 2021, mês com mais mortes por covid-19 desde o início da pandemia. Março foi também o mês com mais óbitos registrados na história do país, segundo cartórios de registro civil.

Já a ivermectina e a nitazoxanida, dois vermífugos, não estiveram na categoria de medicamentos de controle especial durante toda a pandemia — ou seja, os dados registram apenas uma parte da venda desses medicamentos nas farmácias brasileiras.

A nitazoxanida entrou para o grupo de controle especial em abril e a ivermectina em julho. Em seguida, em agosto, o presidente Bolsonaro afirmou nas suas redes sociais que a Anvisa iria facilitar o acesso à hidroxicloroquina e ivermectina e que a população poderia comprar os medicamentos “com uma receita simples”. Em setembro, a ivermectina e a nitazoxanida foram excluídas da classificação da Anvisa de controle especial, permitindo o reaproveitamento da receita e a compra de mais remédios sem a necessidade de uma nova prescrição.

– Não há dúvida que o uso off-label (fora da finalidade da bula) é o responsável pelas grandes vendas desses e de outros medicamentos do ‘kit covid’, que muitas vezes são colocados em lugares estratégicos nos balcões das farmácias para chamar a atenção dos clientes – explicou à reportagem o pesquisador do Instituto de Física de São Carlos da USP e especialista em química medicinal, Adriano Andricopulo.

– O aumento das vendas está associado à expectativa das pessoas, que infelizmente ainda é grande, de obter os possíveis benefícios terapêuticos e se protegerem contra a doença. Mas, esses medicamentos simplesmente não funcionam: o ‘kit’ não serve pra nada – diz.

A Pública lembra que o uso de medicamentos do “kit covid” foi defendido e incentivado publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro para o “tratamento precoce” da covid-19, apesar de ser desaconselhado ou refutado por órgãos de saúde e pesquisa nacionais e internacionais.

Segundo protocolo da Organização Mundial da Saúde (OMS) de março de 2021, a hidroxicloroquina não é recomendada para pacientes com covid-19 independentemente do quadro de gravidade da doença; e a ivermectina é desaconselhada, exceto em pesquisas clínicas. 

No Brasil, diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmaram que não há medicamentos para prevenir ou tratar precocemente a doença; a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não recomenda o tratamento e a Associação Médica Brasileira (AMB) publicou que os quatro medicamentos do kit não possuem eficácia científica comprovada e deveriam ser banidos do tratamento da covid-19. O Conselho Federal de Medicina em seu último comunicado também condenou o uso, após um período sem apoiar nem condenar o tratamento precoce, e alertou para a responsabilização de médicos.

A Pública apurou que, com milhões de comprimidos vendidos, os registros de efeitos adversos causados pela administração de medicamentos do kit têm aumentado no Brasil. Desde abril do ano passado, a Anvisa recebeu 456 notificações de efeitos adversos sobre o uso dos quatro medicamentos do “kit covid” medicamentos. A quantidade é dez vezes mais que no mesmo período anterior, de abril de 2019 a abril de 2020.

Das notificações durante a pandemia, 173 foram graves. Os efeitos relatados mais comuns são sintomas cardiovasculares — como distúrbios no ritmo dos batimentos cardíacos —, dano hepático, diarreia e náuseas.

Segundo a pesquisadora em farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ana Paula Herrmann, todo medicamento tem efeitos adversos, embora muitas vezes os benefícios para a sua indicação superam os riscos. De acordo com ela, isso não ocorre com o kit covid.

– O problema é que na ausência de benefícios, tudo o que sobra são os riscos. E aí não há nada que justifique o uso, porque os riscos podem, muitas vezes, serem imprevisíveis.

Herrmann comentou à reportagem que efeitos adversos como arritmia e lesão renal causados pela associação de hidroxicloroquina e azitromicina são esperados, mas outros são desconhecidos porque até então estes medicamentos estavam restritos a um certo grupo de pacientes, e não eram utilizados por uma grande parte da população.

Fica pior. Mata.

Nesta semana estudo publicado na revista científica Nature comprovou que o tratamento com o medicamento hidroxicloroquina aumenta as mortes de pacientes com covid-19 e que a cloroquina não traz qualquer benefício aos pacientes da doença.

O estudo publicado é uma metanálise, que revisou dados de 30 estudos feitos tanto com a hidroxicloroquina, como com a cloroquina. No total, 10.319 pacientes participaram desses estudos.

– Descobrimos que o tratamento com hidroxicloroquina está associado com o aumento das mortes de pacientes com covid-19 e que não há benefícios na cloroquina – afirmam os pesquisadores.

– Os profissionais médicos em todo o mundo são incentivados a informar os pacientes sobre essas evidências – complementam.

Os pesquisadores destacam ainda que a agência de medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) revogou uma autorização de uso de emergência para esses remédios, em 15 de junho de 2020. Além disso, dois grandes ensaios clínicos randomizados com esses medicamentos foram interrompidos devido aos riscos identificados.

Aponta a publicação na Nature que “embora usados há anos com bons resultados no tratamento de outras doenças, como a malária, a hidroxicloroquina e a cloroquina podem causar efeitos adversos graves, como arritmia cardíaca, o que pode estar relacionado às mortes de pacientes com covid-19”.

Ao fim, convenço-me ainda mais com essa quantidade de informações: cloroquina não é bálsamo alemão, como tratei em Não aos ’saquinhos de ilusão’ do kit covid em Gravataí e Cachoeirinha; Cloroquina não é Bálsamo Alemão!.

Àqueles, mesmo médicos, que justificam o uso por “estudos observacionais”, reproduzo frase de ontem do jornalista Reinaldo Azevedo, à qual associo-me:

– Por estudos observacionais quem se move é o Sol.

 

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