jeane bordignon

Mulheres maiores que o mundo

Na semana passada, estava planejando uma coluna sobre Elis Regina e Nara Leão, em razão dos 40 anos de perda da primeira e 80 de nascimento da segunda. Mas no dia seguinte às celebrações (data de muitas e belas homenagens nas redes), Elza Soares encantou-se, aos 91 anos. Fiquei num empasse entre escrever sobre a rainha Elza ou reverenciar as três juntas… na verdade fiquei mesmo travada para escrever sobre essa mulher que foi tão imensa para nossa cultura e nosso país.

Até porque tive o privilégio de ver Elza no palco, em 2016. Um show da programação das Olímpiadas. A atração era Johnny Hooker (que estava em êxtase, sentindo-se diante de uma deusa) a rainha era participação especial. Entrou carregada, cantou sentada… mas mesmo com o corpo debilitado, não dá para explicar a energia que aquela mulher emanava. Mais de 80 anos, com dores na coluna, mas estava lá, cantando “você vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e incentivando o público a ligar para o 180 e a ter atitude diante da violência contra mulheres. Reverenciando também as conquistas das mulheres pretas como a judoca Rafaela Silva, que ganhou o ouro nos jogos daquele ano.

Essa era Elza. Podia aproveitar a idade avançada para ficar em casa descansando, mas preferia estar no palco, bradando sua voz potente em letras que tocavam em muita feridas da sociedade. A menina que veio do planeta fome, a mulher que saiu de um casamento nocivo e foi muito julgada por isso, a mãe que enterrou quatro filhos… Como pode uma mulher, depois de tudo isso, ainda ter forças para empunhar o microfone e cantar com energia?

Elza era uma força da natureza. Como não se inspirar numa mulher assim?

Acredito que nosso sentimento não deve ser de tristeza, mas de gratidão, porque pudemos ter Elza nesse plano por 91 anos. Foi uma vida intensa e muito rica. Bem vivida. Quando um ciclo se fecha assim, é bonito, não deve ser motivo de dor. E a gente sabe que quem nasceu para estrela, é eterna.

Mas não dá pra negar a tristeza quando alguém parte jovem, como Elis. Quem já leu um pouco a respeito sabe que ela estava para estrear um show novo, num momento bem produtivo da carreira. Eu tinha apenas um ano quando ela se foi, mas leio tudo que posso sobre essa gaúcha maravilhosa, da qual tenho maior orgulho de dizer que tenho a mesma altura: 1,53. Pequeninas no tamanho, mas gigantes no talento (modéstia à parte)!

É inquestionável que Elis foi uma das maiores vozes desse país. E cada êxtase que dá ao ver os vídeos dela! Já viu essa mulher interpretando Cartomante, canção de Ivan Lins, numa apresentação em que começa de joelhos? Nem sei o que dizer! Acho que meu primeiro choque com a cantora foi ao ver, creio que no Video Show, um trecho de Como Nossos Pais, com Elis encarando a câmera como se olhasse no fundo da gente enquanto cantava “É você que ama o passado e que não vê…”.

Agora imagina ter todo esse talento e ter que se impor num meio predominantemente masculino, numa época ainda bastante machista? Hoje penso que o apelido “pimentinha” e a fama de “gênio difícil” que Elis recebeu tiveram uma forte carga de preconceito. Era uma mulher que não aceitava ser joguete nas mãos dos homens, e que eles tomassem as decisões por ela. Do tipo que até hoje muitos homens não gostam.

Talvez toda essa pressão de estar sempre tendo que se impor e fazendo valer suas vontades, tenha contribuído para as más escolhas que acabaram levando Elis para um fim trágico. Nunca foi fácil ser mulher. Continua não sendo. Só mudam as dificuldades.

Nara Leão também era uma mulher que se impunha e que era julgada por isso. Quando rejeitou o título de “musa da Bossa Nova” porque não queria ficar vinculada a um só gênero, foi taxada de traidora. Também não queria ser musa porque não era uma mocinha meiga e que estava no movimento para ser admirada pela sua beleza – Nara escolheu cantar o morro, o sertão, a fome, a desigualdade, um mundo muito mais real do que aquele feito de amor, sorriso e flor.

E depois voltou a cantar bossa, e gravou Roberto Carlos, e encomendou ao Chico Buarque uma canção de mulher que sofre e espera o marido (Com açúcar, com afeto), porque ela gostava e queria gravar uma música assim. Nara cantava o que tinha vontade, não o que esperavam da mocinha da Zona Sul.

Em comemoração aos seus 80 anos, foi lançado um documentário lindíssimo, em cinco episódios, na Globoplay, com depoimentos de amigos, parceiros musicais, dos filhos, do ex-marido Cacá Diegues. Talvez um dos momentos mais grandiosos é o depoimento de Marieta Severo sobre o quanto Nara era uma mulher à frente do tempo dela e inspiração para as companheiras de geração. E continua sendo uma referência para todas nós! Assistam O Canto Livre de Nara.

No caso de Nara, a vida foi abreviada por um tumor no cérebro. Mas ela ainda cantou por alguns anos depois do diagnóstico, acompanhada por seu anjo-da-guarda Roberto Menescal, o amigo-irmão da vida toda. Foi instrumento da música enquanto o corpo permitiu.

Elza viveu mais tempo do que Elis e Nara juntas. O que significa que escreveu uma história mais longa e mais volumosa. Em intensidade, as três foram imensas. Já eram estrelas antes mesmo que subissem ao céu.

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