3º Neurônio | ideias

Mata negros

O Seguinte: reproduz o artigo do jornalista Juremir Machado da Silva, publicado pelo Matinal Jornalismo

 

O Brasil é um país que mata negros sem o menor constrangimento. Mata diante das câmeras e de testemunhas. Há quem sustente que é mera coincidência. O “mera” vale como um atestado de indiferença. Beto foi assassinado em Porto Alegre, dentro de um supermercado, na frente de todo mundo. Era negro. O congolês Moïse Kabagabma foi morto a pauladas na fashion Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Era negro. Mera coincidência? Enquanto a intelectualidade engalfinha-se por causa de um artigo sobre racismo reverso, negros são mortos de modo cruento na Cidade Maravilhosa.

Uns não reagem diante dessas práticas hediondas por medo. Quem pode julgar o medo dos outros? Quem não tem medo de retaliação, de vingança, de acerto de contas? O Brasil é o país do medo. Quanto mais o Estado se omite, mais o medo cresce. Outros nada fazem por indiferença. Outros ainda, impávidos, apoiam a barbárie na base do “ladrão” tem que pagar. O racismo mostra a cara. Mas não faltam brancos para sustentar a tese de que não existe racismo no Brasil. Alguns têm farto espaço na mídia para defender o indefensável. Na mesmíssima Barra da Tijuca, em 2019, Pedro Henrique foi morto por um segurança de supermercado. Era negro. Mera coincidência?

Que país é este? O país no qual, nos últimos dez anos, segundo o colunista do UOL, Jamil Chade, com base num relatório preliminar da ONU, ninguém foi punido por tortura no sistema carcerário federal. Tudo, pelo jeito, funciona às mil maravilhas. Um país que manteve a escravidão até o limiar do século XX, sendo que os proprietários de escravos queriam ser indenizados pela perda de patrimônio quando teriam de indenizar pelo trabalho apropriado sem remuneração. Um país que jogou os ex-escravizados à margem de tudo, sem qualquer projeto de integração, adotando leis severas contra a “vagabundagem” sem oferecer trabalho aos que seriam alvo dessa legislação branca, cruel, elitista e obviamente racista.

Até as balas perdidas acham mais negros do que brancos neste país onde a vida de cada depende do CEP. A colunista Mariliz Pereira Jorge fez uma pergunta nada retórica: quem matou Moïse? Não foram só os homens flagrados pelas câmeras de segurança. Foi um assassinato brasileiro. A jornalista escreveu: “Levou uma semana para que viesse a público a história do assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe. Em que tipo de buraco incivilizado uma pessoa é amarrada, espancada, morta e abandonada na areia sem que isso se transforme imediatamente num escândalo? Sem que haja revolta e que a vida pare? No Brasil. No Rio de Janeiro”. Revolta por aqui só por futebol? Parentes de Moïse denunciam intimidação por policiais. Uma testemunha disse que chamou dois guardas municipais durante o espancamento, mas eles não quiserem ir averiguar a ocorrência. Este é o país do agora não posso, depois a gente vê, deixa pra lá, não é comigo, daqui a pouco.

A morte pode esperar. Especialmente se for de negro e pobre.

Há quem afirme o seguinte: não foi racismo, só xenofobia.

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