jeane bordignon

Doutor Gama: um filme necessário

A vida de Luiz Gama merecia mesmo um filme. Sua história até parece um enredo pronto. Filho de uma africana livre com um fidalgo português, foi vendido como escravo pelo pai aos 10 anos. Conheceu as letras aos 17 anos, por meio de um hóspede de seu senhor. Estudou Direito como autodidata e conseguiu provar que era um homem livre, por ser filho de uma negra liberta. Ficou conhecido como o primeiro advogado negro do Brasil, e ajudou a libertar mais de 500 pessoas escravizadas.

Justo que esse roteiro ganhasse as telas pelas mãos de um diretor também negro: Jeferson De. Para quem não conhece, Jeferson é o diretor de Bróder, filme de 2011 premiado pela APCA (Associação Paulista de críticos de arte), Festival de Cinema de Gramado e Festival de Paulínia, além de 11 indicações no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. O cineasta também lançou em 2019 o filme “M8 – Quando a morte socorre a vida”, que está na Netflix (vale muito assistir).

Mas o assunto aqui é Doutor Gama, que estreou semana passada nos cinemas e na Globoplay. Assisti no primeiro dia, porque já tinha ficado emocionada só com o trailer (Aqui: https://youtu.be/fpQbv2W_ECQ ). E enquanto os créditos subiam, eu só conseguia pensar que esse filme precisa ser obrigatório, exibido em todas as escolas e centros culturais.

Claro que um filme é apenas um chuva para alimentar o mar de reparação histórica que é necessário nesse país. Mas já passou da hora de pararmos de reproduzir a história de como a Princesa Isabel foi benenvolente ao assinar a Lei Áurea, e contar o quanto os negros escravizados lutaram por sua liberdade. E não foi só Zumbi dos Palmares. Foi também Dandara. Foi Luiza Mahin, que era mãe de Luiz Gama. Foi o próprio Luiz, o advogado dos pretos. E muitos outros, apagados da história.

Sabem porque não ouvíamos falar dessas pessoas na escola? Porque nos livros se registrou a história dos colonizadores, pelo ponto de vista deles. Que obviamente tinha que colocá-los como (leia com ironia) os heróis que trouxeram a civilização à essa terra selvagem. Os milhares de nativos e escravizados que morreram? Ah, esses eram fracos ou rebeldes…

A realidade é que nosso país foi “colonizado” na base de muita violência. Nos orgulhamos de ser um povo mestiço, e realmente é bonita a multiplicidade de cores da nossa gente. Mas a mistura de raças, na grande maioria, tem origem em estupros: os corpos das escravas eram propriedades dos seus senhores, os corpos das indígenas também eram violados pelos colonizados como se lhes pertencessem. Assim se formou o povo brasileiro…

Voltando a Luiz Gama, e tentando não dar spoiler, o filme passa rapidamente sobre a história de vida dele e acompanha um importante julgamento onde o protagonista atua como advogado de defesa de um homem negro acusado de matar seu senhor. Só digo que mais do que defender o réu, Gama questiona a própria Justiça. Doutor Gama também deveria ser um filme obrigatório a todos os advogados e também a quem pensar em estudar Direito.

Luiz Gama ainda foi jornalista e poeta. Numa época em que a maioria dos negros era impedido de estudar e até considerado incapaz, o advogado abraçou as letras e escreveu muito. A oratória dele nos julgamentos até hoje é considerada referência, embora não com o destaque que teria se fosse um homem branco. Gama faleceu em 24 de agosto de 1882. Mais de 100 anos depois, ainda não tem o reconhecido merecido.

Encerro com um trecho de um de seus poemas mais famosos, “Quem sou eu?” (A Bodarrada). Para quem quiser ler mais, o livro Primeiras Trovas Burlescas está disponível para download no site Domínio Público.

 

“Não tolero o magistrado,

Que do brio descuidado,

Vende a lei, trai a justiça,

– Faz a todos injustiça –

Com rigor deprime o pobre

Presta abrigo ao rico, ao nobre,

E só acha horrendo crime

No mendigo, que deprime.

– Neste dou com dupla força.

Té que a manha perca ou torça.”

 

Assista ao trailer de Doutor Gama

 

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