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Darcy Silva, o ’Rei do Bailão’, deixa saudade e história em Cachoeirinha, Gravataí e no RS

O 'Rei do Bailão', Darcy Silva faleceu aos 82 anos e deixou um legado em Cachoeirinha, onde é cidadão honorário desde 2019, Gravataí, onde morava, em Morungava, e no Rio Grande do Sul, com suas canções, poesias e bailões. A filha Lourdes Helena Silva, que mora na 59, relembrou a trajetória do pai para o SuiGeneris e o Seguinte: reproduz

 

Darcy Victor da Silva nasceu em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, em 10 de janeiro de 1939. Filho de Carlos Victor da Silva e Olina Ferreira da Silva, carinhosamente conhecida como Linóca. De uma família de 4 irmãs e 5 irmãos ele era o mais novo entre os homens.

Seu pai, um pequeno agricultor em São Francisco de Paula, tirava o sustento da família da própria roça e da criação de umas poucas cabeças de gado. Ele descrevia-o como um homem muito trabalhador, correto, excessivamente rígido na criação dos filhos, mas de uma saúde muito frágil.

Sua infância e a dos irmãos homens, foi marcada de muito trabalho na roça e na lida com o gado.

Devido a lida do dia os estudos nunca foram prioridade e, assim, cursou apenas até o quarto ano escolar. Contudo, ele sempre foi diferenciado no seio familiar pelo jeito desenvolto e comunicativo.

Perdeu seu pai em 1956 com apenas 17 anos. E, mesmo tão jovem, se sentiu na obrigação de cuidar da mãe e da irmã mais nova. Assim, em 1956, aos 17 anos, veio para Porto Alegre e logo foi trabalhar em uma chácara no bairro Sarandi. Após, trabalhou como cobrador de ônibus. E, em 1957, aos 18 anos, serviu no exército sob o número 513, no 6° Batalhão de Engenharia e Combate, no bairro Partenon.

Desde muito jovem já trazia nas veias o gosto pela arte musical. Era repentista, poeta e compositor. Nos lugares que frequentava, sempre se destacava por alguns desses dons. E foi assim, que num acampamento junto com todo o Batalhão, durante um momento de descanso dos soldados que, inesperadamente, o seu Oficial diz:

– 513? Sobe aqui neste palanque e diz uma poesia para nós.

De improviso ele começa:

– Soldado é uma nobre classe que muita gente desconhece, para defender sua Pátria a própria vida oferece e são poucos que sabem dar, o valor que ele merece.

Esse comportamento e a sua dedicação enquanto servia o Exército lhe rendeu um tratamento especial de toda a corporação. No quartel, também tirou sua carteira de motorista e tornou-se o chofer de seus superiores.

Quando deu baixa do Exército fez sua carteira de motorista profissional e logo foi dirigir ônibus. Durante este período trouxe a mãe e a irmã para Porto Alegre. A matriarca viveu ao lado dele até os 80 anos, quando veio a falecer. Embora fosse o filho homem mais novo, cuidar de sua mãe sempre foi sua prioridade.

Em 1959, aos 20 anos, trabalhou como motorista de caminhão na então conhecida “Caninha Moreninha”. Naquela época, o motorista dirigia, vendia e descarregava o caminhão. Salientava que os engradados das bebidas eram de madeira e muito pesados e que ele tinha um “calo” nos ombros de carregá-los. Neste momento, era inevitável não ver o seu semblante orgulhoso, comentando que, mesmo assim, ele era o melhor vendedor da empresa.

Casou-se em 1961, aos 21 anos, com Maria Ivone e, por volta de 1964, mudaram-se para Cachoeirinha.

Sua trajetória profissional, mesmo em empregos que exigiam muito esforço, sempre esteve associada à música. Participava de muitos eventos musicais, rodas de cantores e trovadores, tudo isso pelo prazer de fzer e conviver com a música. E foi assim, que ele estabeleceu amizades com Gildo de Freitas, Teixeirinha, Valdomiro Melo, Timbaúva, entre tantos outros que foram amigos de uma vida toda.

No ano de 1972 ele participou de um torneio de Trovas, em Vacaria, onde saiu campeão. Na ocasião estava presente no evento o filho de Hermano Sperb, proprietário da Metrópole. Ele o convidou para trabalhar na rádio. Convite aceito, logo se tornou, por vários anos consecutivos, o programa líder em audiência da emissora. Trabalho exercido com tanta excelência que, merecidamente, foi reconhecido com uma Carteira de Jornalista, Locutor e Apresentador, válida em todo o território nacional.

Em 1975, com seu programa de rádio no auge do sucesso, ele abriu em Cachoeirinha uma loja de discos chamada, “O DISCÃO”, que na ocasião foi um sucesso na cidade. Logo na sequência abriu uma filial, também no município, e uma Agência de Publicidade chamada: “DARCY SILVA PROMOÇÕES”.

O programa na Rádio Metrópole continuava líder em audiência, mas inovar era preciso. E em 1977 ele teve a brilhante ideia de fazer um programa de rádio ao vivo. Foi quando criou a “GRANDE NOITADA REGIONALISTA”, que acontecia todas as sextas feiras no CTG Lenço Branco, localizado próximo ao Estádio Olímpico em Porto Alegre. Ele apresentava, ao vivo, artistas regionais, que faziam shows e logo após o programa, no mesmo local, tocavam no baile.

Em meio a estes negócios também apresentou um programa de televisão.

Diante de tantos empreendimentos e dons, Darcy escreveu centenas de músicas, gravadas por ele e por diversos outros artistas. Ele também escreveu inúmeras poesias e algumas também foram gravadas. Em meados dos anos 80 ganhou um prêmio na Casa de Cultura Mário Quintana com a poesia “DIA DE NATAL”,

Não podemos negar que o lado artístico de Darcy Silva sempre foi acompanhado de muito trabalho e, indiscutivelmente, de uma larga visão empreendedora. Aquele gurizinho que nasceu em São Francisco de Paula, que estudou até o quarto ano primário e que perdeu o pai muito jovem, veio para Porto Alegre com a responsabilidade de trabalhar, cuidar da mãe e de sua família. Contudo, não deixou de perceber que quanto mais trabalhava, mais as oportunidades profissionais andavam junto com o seu esforço.

Se analisarmos essa trajetória podemos ver que o gosto pela música, a poesia e a comunicação norteavam todos os seus empreendimentos. Podemos imaginar que também esse era o assunto que mais interessava a ele. E foi em 1978, numa dessas conversas com o amigo e patrocinador de seu programa, Metson Tumelero, diretor do Tumelero na época, que comentaram sobre o sucesso que o radialista Zé Bettio estava fazendo em São Paulo com a abertura de um bailão.

Como Darcy não ignorava nada que o rodeava, começou a analisar o que ele e o grande amigo empresário haviam comentado. Em dezembro de 1978, inaugurou o BAILÃO DO DARCY SILVA, que ficava na Av. Assis Brasil 7805, em Porto Alegre.

Neste segmento ele chegou a ter sete bailões, entre eles o Rei do Bailão e Bailão do Cardoso, em Porto Alegre, Bailão da Scharlau e Gigante do Vale em São Leopoldo, Bailão de Tramandaí em Tramandaí e o Gigante do Gravataí em Gravataí.

A “era” dos BAILÕES DO DARCY SILVA durou até o final de 1999. Estamos falando de mais de VINTE ANOS, quando ele vendeu o último dos bailões, que foi o REI DO BAILÃO.

Muitos cantores, duplas, conjuntos e até mesmo comediantes tiveram a sua estreia nos palcos do Rio Grande do Sul, trazidos pelas mãos deste empresário. Pode-se assegurar que, Darcy, com a fundação dos bailões, contribuiu para alavancar e tornar conhecido muitos cantores que estavam iniciando suas carreiras, muitos dos nomes que hoje fazem sucesso no Brasil e no exterior.

Enfim, no decorrer desta trajetória passaram pelos palcos dos BAILÕES DO DARCY SILVA grandes nomes de artistas regionais e nacionais que você nem imagina!

Somos gratos a este gaúcho que, com dons artísticos, muito trabalho e força de vontade, nos deixou um grande legado musical e de entretenimento para a História do Rio Grande do Sul.

Quando estava com 80 anos, perguntei a ele:

– Pai, como você descreve a sua trajetória de vida?

Ele respondeu com muita ênfase:

– Tudo que eu fiz deu certo porque Deus é muito bom.

Esse é Meu Pai!

Meu orgulho!

Lourdes Helena Silva e todos os meus sete irmãos.

 

: Filha Lourdes com o pai Darcy Silva, o 'Rei do Bailão'

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