do face para o livro

A palavra embarcada

Vivemos dias de cisão. Os tempos modernos e as tecnologias propuseram uma releitura da terceira lei de Newton: a cada opinião expressada corresponde um textão de mesma ou superior intensidade, em sentido oposto.

Argumentar, em si, jamais é problema: o que é problemático é a falta de terceiras margens do rio, relembrando Guimarães Rosa. Na lógica das redes sociais,se você é favor de A, é obrigatoriamente contra B. E nessas vias de mãos duplas, nas quais muitas vezes duas pessoas transitam de olhos fechados, num combate, perde-se o caminho do bom senso.

Eu estava pensando nisso quando troquei o Facebook pelo livro cuja leitura comecei. Chama-se A sombra da água, de Mia Couto, lançado recentemente, em 2016. É o segundo livro de uma trilogia moçambicana.  A história ocorre no final do Século XIX, quando o governo colonial português procurava firmar seu espaço em África e travava disputas com etnias locais. Na carta enviada pelo Tenente Ayres de Ornelas ao personagem Germano de Melo, o Tenente confidencia:

“Aprendi, contudo, que a política não pode ser o diapasão para fazer e desfazer amizades. Tenho nas fileiras do meu partido pessoas de que muito me envergonho. E conheci nas hostes dos adversários gente que muito me fez crescer.”

Pareceu-me perfeito. Claro que essa afirmação não foi realmente dita, é uma ficção inventada por um autor contemporâneo que, provavelmente, sente também essa cisão com a qual convivemos diariamente. Mas o que importa notar é que de divisões o mundo sempre foi feito; no entanto, parece que a ferramenta das redes sociais potencializou tudo isso. E talvez não estejamos preparados para lidar com esse excesso de informações e com a ampla possibilidade de nos manifestarmos sobre qualquer tema.

O personagem que escreve a carta segue dizendo:      

“Numa terra atravessada por grandes rios, cada carta é uma canoa atravessando distâncias. Se eu fosse poeta, diria: com a palavra, a margem se torna miragem.”

Que discutamos, mas não façamos das palavras projéteis. Que o verbo seja canoa, que atravesse distâncias, que nos aproxime. E que isso seja uma decisão. 

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