a moça de 18 anos

Carona perdida

Estive, na semana passada, em um jantar social com amigos. No entorno da mesma mesa, além de mim, outros cinco com mais de cinquenta anos e uma moça de dezoito. Sei a idade porque perguntei quando vi a taça a sua frente servida de vinho. Gentilmente, ela respondeu que antes da minha chegada, o garçom já havia feito essa pergunta.

Conhecia a menina de outras ocasiões festivas, mas nunca havia conversado com ela e, justo na primeira vez que inicio um diálogo, foi através do tema da idade, um tabu entre homens e mulheres.  Para quebrar o aparente mal estar que eu provoquei com meu questionamento, um amigo olha para a guria e pergunta se, por acaso, era ela em tal dia, tal horário, no ponto de ônibus em frente à faculdade. Ela responde afirmativamente. E a idade dela voltou a ser o assunto!

Meu amigo contou que ia lhe oferecer carona, mas teve receio de não ser reconhecido por ela. Pior seria se as outras pessoas do ponto de ônibus imaginassem que uma menor de idade estava sendo importunada, anotassem a placa de seu carro, fizessem denúncia e “o escambau”. Ela ri e diz: “naquele dia fui para a mesma reunião que o senhor. Que pena perder a carona por conta de parecer mais nova do que sou!”. A conversa foi interrompida com a chegada de outra pessoa junto ao grupo e, logo em seguida, o começo da solenidade motivadora de nosso encontro.

Ao sair da festa fui para casa pensando no episódio. A questão vai além da idade. Meu amigo, apesar da boa intenção, preferiu não arriscar-se a um pré-julgamento equivocado. Teriam as pessoas do ponto de ônibus se importado? Alguém pensaria em tomar providências ante a possível tentativa de assédio sexual? Será que meu amigo não poderia também sentir-se alvo de assédio, neste caso de assédio moral, por alguém “julgá-lo mal”?

Aliás, sou totalmente a favor da frase “mexeu com uma, mexeu com todas”. Só que também precisamos refletir sobre exageros no combate às discriminações e assédios. Não vou perder meu tempo procurando falhas alheias. As pessoas – de todos os sexos – não são más. Algumas são, mas nenhuma delas é cem por cento má. Esta é uma das minhas raras certezas.

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