a coluna da jeane

Um ano novo?

O que realmente muda com a virada do ano? Por que sentimos como se ganhássemos um caderno em branco, limpo dos erros do passado e pronto para ser preenchido com novas conquistas? Por que agimos como se a simples mudança do calendário seja capaz de nos transformar em pessoas melhores?

Talvez seja a noção de que depois de todo fim vem um novo começo. Ou a sensação de que podemos “reiniciar” a vida como fazemos com o computador, retomando os trabalhos com o sistema mais leve.

Não deixa de ser uma ilusão que conforta. Porque se não fizermos mudanças efetivas no nosso modo de viver, nada vai mudar de fato. E também não dá pra deixar para trás o que não foi concluído no ano que findou (Eu que o diga, com minha saga do braço).

Mas reconheço que o calendário nos dá uma percepção mais concreta de que a vida é feita de ciclos, e a cada dezembro nos estimula a fazer uma revisão em como estamos conduzindo nossos caminhos, pensar em que ciclos queremos fechar, projetar em que novas estradas queremos andar. É interessante também como a maioria se permite, no período de festas, dar uma pausa da rotina e da correria da vida moderna.

Quando a gente se dá esse tempo, desacelera, tudo fica mais claro… Em consequência, entramos janeiro com fôlego renovado e mais discernimento para não repetir as falhas dos anos que já passaram.

Mesmo assim, colocamos muita expectativa no novo ciclo. Depois de quatro décadas batendo cabeça, aprendi que quanto mais expectativa a gente cria, mais a gente se frustra. É preciso ter objetivos e metas, mas a vida é mais “vivendo e aprendendo a jogar”, do que uma receita seguida à risca.

Mais forte não é quem acumula mais conhecimentos, mas sim aquele que tem mais jogo de cintura, que sabe se adaptar aos acidentes de percurso e mudanças de rotas. Nem sempre o caminho planejado é o mais viável. Você só vai saber mesmo quando estiver na estrada. Como escreveu Guimarães Rosa: “Aprender a viver é que é o viver mesmo”.

O que também me fez pensar nas expectativas foi a série 3% (da Netflix), que maratonei nesses primeiros dias de janeiro. Em certo momento da história, cada um dos personagens principais questiona as motivações que tinham no início. E percebem que os resultados que buscavam são utopias.

De certa forma, a série joga na nossa cara que o ser humano sempre busca uma utopia na qual se agarrar… seja um paraíso que é acessível apenas a poucos “merecedores” (e que cresceu em cima de mitos), ou a militância de conseguir provar que o tal paraíso é uma ilusão. E em ambos os casos, muitos mergulham tanto na crença que se tornam cegos e radicais.

A maioria está tão presa à ideia de que só serão felizes se conseguirem entrar no tal paraíso, que não acreditam ser possível mudar a realidade que os cerca. Acomodam-se numa vida miserável, porque se convencem que é tudo a que podem ter acesso, e que dita regras é quem está no poder (no caso da série, os líderes do tal paraíso).

Quem se acomoda tem raiva daqueles que não acreditam nas ilusões, daqueles que fazem seus próprios caminhos dentro do possível. Quem acha que todos deviam tentar ser felizes aqui e agora, se revolta contra aqueles que não querem abrir os olhos. E na troca de agressividade, todos continuam presos à utopia de que tudo vai melhorar um dia.

Talvez cada começo de ano nos dê, ao menos por algum tempo, a sensação de que finalmente chegamos nesse momento da felicidade almejada. Só que a felicidade idealizada nunca chega. Tem gente que passa a vida numa gangorra de esperança e frustração.

Prefiro pensar como na música de Odair José: “…o que existem são momentos felizes”. Contemplar as pequenas alegrias de cada dia vale muito a mais a pena do que buscar uma grande felicidade inalcançável.

Valorizar cada sorriso, cada conquista (que às vezes pode ser o simples fato de conseguir sair da cama), cada elogio, cada sabor… valorizar estar vivo (talvez seja essa a maior lição da pandemia). Pensar no que te faz feliz hoje.

Por mais difícil que tenha sido o dia, deve haver algo que te fez feliz, mesmo que por um breve instante. Nem que seja o fato de ter superado um dia pesado.

Ah, mas como ser feliz num país como o nosso, num momento tão difícil do mundo? É, está complicado, ainda mais para quem tem olhos críticos. Mas é encontrando motivos para sorrir que ganhamos energia para lidar com esse período de trevas.

Sempre em frente, um dia de cada vez.

Feliz 2021!

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