a coluna do fernie

Recuerdo nº 1

Antiga ponte de ferro que ligava Porto Alegre e Cachoeirinha

Eu me vejo dentro de um carro. Eu ouço música e o ronco alto do motor.

O cheiro do carro é algo peculiar, que eu nunca senti em nenhum outro lugar. Talvez seja a mistura do couro dos bancos com a espuma, que começa a aparecer em alguns lugares.

Está escuro lá fora, escuro de noite fechada. Só não está mais escuro por causa das luzes dos prédios e dos postes, que iluminam a longa avenida. Onde estamos? Cachoeirinha, eu acho. Ou já é Gravataí? Não sei. Eu já conheço esse trajeto, mas nunca sei exatamente onde começa e onde termina cada cidade; é tudo uma coisa só.

Meu pai dirige, compenetrado. Minha mãe vai no banco do carona, algumas sacolas de roupa nas pernas dela, junto com uma garrafa térmica de café. As conversas dos dois volta e meia misturam-se com o barulho do carro e a música.

Ainda estamos no início da viagem. A avenida é longa, a cidade parece não ter fim. A noite está serena, escura. É tarde, mas eu não tenho sono, e nem quero dormir; eu quero assistir à viagem do início ao fim. Meus pais conversam tranquilamente. Eles não estão brigando; talvez a viagem acalme eles um pouco.

Nosso destino é Rondinha. É quinta-feira, amanhã é feriado. Minhas irmãs ficaram em casa, fazendo sei lá eu o quê. Eu estou indo para a praia, bem melhor do que ficar em casa. Sim, eu vou ficar longe do computador, mas não tem problema. Estar na praia compensa.

Que idade eu tenho? Onze anos? Menos, talvez. Que diferença faz? O tempo é infinito.

A música toca nos alto-falantes do carro, uma música instrumental, suave, conduzida por piano. Foi meu pai que apresentou-me Richard Clayderman, e eu fiquei apaixonado. A fita cassete é emprestada, não se de quem. Olho na capa da fita; que música é essa? Les Regrets, eu acho. Ou Ne Me Quitte Pas? Eu sempre confundo. Eu tenho as músicas praticamente decoradas, mas esqueço qual é qual.

Meus colegas ririam de mim se ouvissem aquela música, mas, também, eles riem de tudo que eu faço e tudo que eu sou. Será que eles ficariam sozinhos com os pais na praia, em pleno inverno, como eu? Será que eles se envergonhariam se seus pais dirigissem carros tão velhos, e fugissem do pedágio e da fiscalização da Freeway?

Eis a minha voz de adulto intrometendo-se. Perdão.

Será que eu sou uma pessoa feliz? O que é ser feliz, afinal? Ir pra praia me deixa feliz, sim, mas, quando eu voltar para colégio na segunda-feira, vai ser o mesmo inferno de sempre. Será que é possível ser feliz desse jeito? Será que existe alternativa?

Será que eu moraria na praia para sempre? Com o computador, talvez. Talvez meus pais brigassem menos. Existe colégio na praia? Talvez lá os colegas não sentissem tanto desprezo por mim.

Melhor focar-me na música—Les Feuilles Mortes, eu acho—e na paisagem lá fora. A avenida parece mais estreita, e os prédios estão mais densos. Meu pai diminui a velocidade, e faz uma curva para a direita. Aceleramos por uma subida, o motor ronca, meus pais conversam. Andamos por algumas quadras, diminuímos a velocidade, entramos à esquerda. Passamos por uma praça à direita, paramos em uma sinaleira. Meu pai sempre reclama da demora dessa sinaleira. Meu pai conhece todas as ruas e todas as cidades melhor do que a palma da mão; eu acho que, se fôssemos largados em algum lugar no meio do Amazonas, ele daria um jeito de voltar, sem se perder.

Eu fico reparando nos nomes das lojas, nas placas dos outros carros, nas luzes dos postes. A música persiste. A sinaleira abre. Seguimos. A avenida faz uma descida, a cidade fica mais rarefeita. Entramos em uma rótula. Aqui é a Estrada Velha, eu acho, com toda sua sinuosidade.

A viagem é longa, e, às vezes, eu penso que talvez eu poderia morar dentro de uma viagem de carro. A paisagem é mal iluminada pela lua, mas o movimento e as curvas do carro embalam-me. Hora de virar o lado da fita: Les Derniers Jours d’Anastasia Kemsky. Será que é estranho eu gostar tanto dessas músicas? Meu pai claramente quer que eu me dedique ao teclado. Minha mãe também gosta. Eu tenho vergonha de tocar perto deles; eu erro demais, fica feio, não gosto de decepcionar. Richard Clayderman toca sem errar. Pudera eu ser como ele, pudera. Talvez algum dia? Será que ele era como eu no início?

Gostaria de, algum dia, ver o nascer do sol na estrada. Meu pai quase sempre viaja de noite, por causa da fiscalização—mas, de vez em quando, viajamos de dia. Na volta da praia, quase sempre voltamos no fim da tarde, e eu posso ver o pôr do sol, as nuvens tingidas de laranja e rosa pairando sobre a estrada e os morros. Mas eu gosto de viajar de noite, também. Gosto de ver as placas de sinalização mudando de cor na medida em que chegamos mais perto, e eu fico pensando como isso acontece.

Quando acabar a fita, eu tenho várias outras para colocar. O bom é que a viagem é sempre embalada por música; se não fosse, seria ruim, bem ruim. Sempre dá uma pequena tristeza quando a fita acaba; eu não gosto de pensar na finitude das coisas. Uma hora, essa viagem vai acabar, mas, pelo menos, estaremos na praia. Minha mãe vai arrumar minha cama, eu vou dormir, acordarei pela manhã e poderei sair pelas ruas, visitar a praia e a lagoa, andar de bicicleta, fazer o que quiser.

Por enquanto, eu tenho a estrada, eu tenho a música. Minha mãe serve um pouco de café para meu pai, em um copo alto de plástico. Ele dirige com uma mão e segura o café com o outro. Eles conversam. Daqui a pouco eu peço um pouco de café para minha mãe; ela serve apenas alguns golinhos, para que eu não vicie.

A viagem parece longa, longa, mas eu nem me importo. Não tenho pressa de chegar. Será que meus pais têm? Por que ter pressa, se a viagem é tão agradável? Para mim, pelo menos, ela é. Um dia, eu gostaria de experimentar como é dirigir por estas estradas, conduzir o carro, sentir a velocidade e as curvas nas minhas mãos e meus pés. Um dia, será? Eu espero aprender a dirigir. Por enquanto, dirigir, só no computador.

Em breve, a fita vai acabar; eu já vou preparando a próxima. Em breve, eu estarei em Rondinha, e poderei perambular sozinho pelas ruas; sozinho, não, pois terei meus pensamentos. Quem se importa de ficar sozinho? Tem tanta gente que reclama disso, mas eu não vejo problema. Tudo bem que é bom ficar com os amigos, mas eu passo tão pouco tempo com eles, e preciso conviver tanto com gente que me detesta. Melhor ficar sozinho, então. Eu não me detesto. Será que eu gosto de mim mesmo? Que sentido isso faz? Minha mãe fala tanto que é errado a gente ser egoísta, pensar só em si e não nos outros. Eu não tenho que gostar de mim mesmo. Gosto das coisas que eu faço, e elas já me fazem feliz. Feliz? Não sei. Elas me fazem bem. Não sei se sou feliz. Será que um dia eu serei? Se meus pais parassem de brigar; se meus colegas me deixassem em paz; se eu pudesse ouvir música dentro da cabeça, a hora que eu quisesse, sem precisar de toca-fitas; se eu pudesse morar dentro de uma viagem de carro, ver o sol nascer no horizonte, encher os olhos com a luz do dia, assistir ao entardecer, ver o céu escurecer, a lua e os faróis do carro brilhar, até o sol nascer de novo, de novo, para sempre.

Todo mundo fala em ser feliz, mas eu não sei o que isso é.

Essa é a minha voz infantil ou adulta? Eu nem sei mais.

 

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