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Entre a polícia e a facção; o dilema de Manoel D ´Ávila, vereador preso em Cachoeirinha

Droga foi apreendida em Porto Alegre e Cachoeirinha | Foto POLÍCIA CIVIL

Ao menos na sentença do dia do Grande Tribunal das Redes Sociais Manoel D´Ávila (PV) resta condenado, após ser preso em flagrante em operação do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil, que na noite de ontem apreendeu 800 quilos de maconha e fechou um laboratório de cocaína entre Cachoeirinha e Porto Alegre. Já na loteria de toga da Justiça, não é bem assim.

Em Gravataí, o vereador Mario Peres (PSDB) experimentou situação análoga em agosto de 2018, não deu nada, seguiu com a ficha limpa e ainda foi reeleito nas eleições de 15 de novembro deste ano.

Porém, como alertei à época no artigo Mário Peres, entre a polícia, a câmara e a facção, o risco de morte que correu, ou talvez ainda corra Mario Peres, porque o processo ainda não está concluso, é o mesmo que ameaça Manoel.

Um pouco de contexto.

Horas depois de, em 14 de agosto de 2018, na maior apreensão da droga naquele ano, a Polícia Civil gaúcha achar 721 quilos de maconha em um depósito de sua propriedade, Peres disse com exclusividade para o Seguinte: locar o prédio na Vila Rica para um vizinho:

– Aluguei o prédio por cinco anos. Não tenho nada com isso. Mas meu nome está circulando aí, nas redes sociais, como um criminoso – disse na entrevista EXCLUSIVO | Vereador de Gravataí diz que alugava prédio da meia tonelada de maconha.

Já na operação desta quinta em Cachoeirinha, conforme GauchaZH, o vereador foi preso em flagrante em uma casa dentro da área que era usada como local de armazenamento da droga, antes de ser retirada pelos traficantes. Dentro da residência, foram encontrados um revólver calibre 38 e munição. Os policiais também localizaram no carro do parlamentar uma pequena quantidade de maconha e munições calibre 38.

Tento ouvi-lo, mas ainda não foi possível. Segundo o diretor de investigações do Denarc, delegado Carlos Wendt, disse à reportagem de Laura Becker e Yuri Falcão, em um primeiro momento, o vereador negou que o veículo fosse dele, mas depois acabou confessando.

– Inicialmente, ele disse que não sabia de quem era o carro. Mas vasculhamos o local e encontramos a chave. Após averiguarmos o veículo, ele confessou que era o proprietário. No entanto, negou o conhecimento das drogas que foram localizadas no depósito.

Ainda conforme apuração o vereador disse aos agentes comandados pelos delegados Alencar Carraro, da 3ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico (DIN), e Fernando Ciqueira, da 4ª DIN, que “estava no local para ajudar na construção de uma associação que está sendo erguida no terreno e que apenas ia dormir na casa”.

Manoel é ligado à Ahumas, Associação Humanitária de Assistência Social.

Reputo não é nada confortável a situação de Manoel. Basta substituir Mario por Manoel no que escrevi à época sobre o escândalo em Gravataí: agora o vereador é alvo da polícia ou da facção.

É uma racionalização grosseira, mas óbvia a quem pensasse nas dificuldades que em 2018 enfrentava o caminhoneiro aposentado, de hábitos simples como a maioria dos moradores do bairro da periferia de Gravataí, e agora assombram o dono de depósito de gás de Cachoeirinha.

Sim, porque comprovada a versão inicial de Manoel, o vereador não tem nada a ver com a droga, como Mario dizia não ter em 2018. Mas, para se livrar de um indiciamento por associação ao tráfico, terá que servir de testemunha para apontar quem usava o imóvel onde estava a tonelada de droga.

No jargão policial, vai ter que ‘dar alguém’. No papel, ou em depoimento. E esse alguém provavelmente tem alguma espécie de envolvimento com o crime. Necessário lembrar que não estamos falando de petequeiros de uma biqueira qualquer no fundo de uma vila, mas de uma facção que com a operação policial amarga um prejuízo de mais de R$ 1 milhão com a apreensão da droga.

Há dois anos escrevi sobre Peres, e pode valer também para Manoel:

"(…) Coloque-se no lugar de Mário, leitor. Ele disse nunca ter desconfiado de nada, apesar do delegado Rafael Sobreiro, que comanda a investigação aberta pela 2ª DP de Gravataí, após a entrevista coletiva de terça ter feito até um desenho mostrando em um papel que seria possível ver o movimento desde a casa do vereador.

Supondo que alguém já tivesse alertado Mário e ele testemunhasse da janela caminhões entrando e saindo do prédio, sob o sol ou sob a lua, o que poderia ter feito? Uma denúncia? Você faria, arriscando se tornar um alvo? Mais: a ‘apropriação’ de imóveis por traficantes não é incomum em territórios dominados por facções. Só por ser vereador, Mário não teria obrigação de ser herói (…).

Déjà vu?

Se em Cachoeirinha além de droga teve até arma, a operação em Gravataí registrou também a apreensão de dois caminhões, dois carros e uma moto clonados, ligações clandestinas de luz, um poço artesiano e uma questão que, além de crime, fere o coração das pessoas: os maus tratos a animais indefesos. Nove galos de rinha – um bastante ferido – foram apreendidos em um anexo ao pavilhão, onde havia uma estrutura chamada de tonel, que serve de ringue.

Dois anos depois, a Câmara não abriu CPI ou processo de cassação, Peres não foi condenado na Justiça, manteve a ficha limpa e foi reeleito aumentando a popularidade de 904 para 1.278 votos. O principal: está vivo. Avesso ao ‘bandido bom é bandido morto’, concluo da mesma forma que na época: o que talvez poucos se deem conta em meio à sanha condenatória é que, mais do que um vereador envolvido em uma investigação de tráfico de drogas, e que deve muitas explicações, há um ser humano chamado Manoel D´Ávila que pode estar com a vida em risco.

Ao fim, preso ou solto, vereador Manoel não será mais a partir de 1º de janeiro. Concorreu sob recurso à impugnação de sua candidatura devido à 'ficha suja' por sonegação de impostos, caiu de 762 para 205 votos em 2016 e o escândalo político certamente abate qualquer possibilidade de ocupar cargo no segundo governo do prefeito Miki Breier, de quem faz parte da base de apoio na Câmara.

Torço para que responda à Justiça, mas siga vivo, como Mario Peres em Gravataí, diferente de outros casos bem conhecidos em Cachoeirinha.

 

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