opinião

Do autor de O País dos Petralhas sobre Lula de macacão laranja

No dia 25 de fevereiro de 1981, o sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, foi condenado à revelia, com outros dez sindicalistas, a três anos e meio de prisão, enquadrado na Lei de Segura

O genial Reinaldo Azevedo, autor de O País dos Petralhas, fez aquela que considero a melhor análise sobre os minutos que antecederam o Brasil e Alemanha que levou a ‘Lava Jato do Mal’ no 10 a 1 no qual o Supremo vetou a transferência de Lula de Curitiba para presídio de São Paulo.

Siga e, ao fim, comento.

 

“(…)

Por que transferir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora? Bem, a coisa é tão evidente que chega a ser infantil. Porque a Lava Jato está acuada pelas ilegalidades que cometeu. E Lula, condenado sem provas por Sergio Moro, é seu maior troféu. O que se pretende com isso? Em primeiro lugar, mobilizar a tropa bolsonarista nas redes sociais. Lula ainda é o elemento que mais assanha a sua libido punitivista. Fale o nome "Lula", e todos os ódios se conjuram.

Mesmo a direita não-bolsonarista, quando o assunto é o ex-presidente, silencia diante das óbvias agressões à ordem legal havidas no seu caso. É como se dissesse: "Nosso limite para dizer 'não' a Bolsonaro é Lula". Sim, é uma forma de covardia. Há muitas. Não suporto gente covarde. É o tipo mais desprezível que nossa espécie produziu.

Assim, para excitar a fúria dos algozes, como diria o velho e bom Castro Alves, nada como reacender o caso do local da prisão de Lula. Especialmente porque ele está a coisa de um mês da progressão da pena do regime fechado para o semiaberto. Ainda que o Supremo não trate da óbvia suspeição de Moro, há a possibilidade de deixar a cadeia, indo para a prisão domiciliar.

Em segundo lugar, o objetivo é colocar o STF, mais uma vez, no centro do debate para testar fidelidades. Como Fachin seria, como foi, o relator do pedido feito pelo PT para evitar a transferência, a Lava Jato queria saber se o "Fachin ainda é nosso", para lembrar a expressão de Deltan Dallagnol depois de encontro com o ministro.

Cármen Lúcia, embora tida como "frouxa" pelos procuradores, continuaria a proferir votos contra a o petista só para mostrar que é independente — no caso, independente até do estado de direito? E como se comportaria Celso de Mello, cuja opinião sobre o rolo todo é alvo da curiosidade da Lava Jato e de todo mundo?

Entenderam? A Lava Jato tentou usar a transferência de Lula como uma espécie de teste para mapear a opinião e o comportamento dos ministros. Além de jogá-los na fogueira dos bolsonaristas.

Que importa que possa pôr em risco a segurança de um ex-presidente da República? Isso não é problema da Lava Jato.

E não se trata de protegê-la de ações ilegais. Trata-se de isentá-la dos efeitos da lei e das regras do Estado de Direito.

(…)

 

Analiso.

Lula poderia ser filmado algemado e cabelo raspado, usando macacão laranja Orange Is the New Black em uma galeria de presídio, mas isso não mudaria em nada as ilegalidades flagradas nos diálogos divulgados pelo Intercept. Seria apenas mais uma arbitrariedade, desta vez aloprada pela reserva de Moro.

Terá chegado a Lava Jato à beira do precipício, lá embaixo, olhando para cima, em um momento no qual aplausos dos fanáticos já bastariam?

Recomendo assistir Leviatã, produção russa premiada com o Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2014. É um filme sobre a decadência do homem e da sociedade. Não existem inocentes e todos são corruptíveis. Em uma cidadezinha na região do Mar de Barents, litoral da Rússia, um pai de família luta para manter suas terras enfrentando um grande conluio de políticos, juízes e poderosos.

Não, não vi Lula em Kolia, o protagonista. Vi eu e você. Porque se a lei não vale para Lula, um poderoso, por que valeria para nós, simples mortais?

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