política

As bolhas digitais não representam a opinião pública; Rede social não é urna

Arte do genial Pawel Kuczynski

Elis Radmann foi uma das conselheiras do prefeito Marco Alba (MDB) durante seus dois mandatos. A cientista política, fundadora do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, há 23 anos na análise e marquetagem política foi responsável por levantamentos de acertos, erros e popularidade do governo de Gravataí.

O artigo da socióloga, As bolhas digitais não representam a opinião pública, publicado no site gaúcho Coletiva, confirma algo que já escrevi inúmeras vezes no Seguinte: e alertei em conversas com políticos e eleitores durante a campanha: rede social pode até ser termômetro, mas não é urna.

Testemunho a 'maioria silenciosa' no próprio Seguinte:. Como os artigos são invariavelmente polêmicos, o contador marca milhares de leituras no site, mas menos curtidas e comentários nas redes sociais.

Não são todos que vão à guerra com as milícias digitais.

Leem e optam por não demonstrar publicamente concordância ou discórdia.

Reproduzo na íntegra a opinião da Elis.

 

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Quando olhamos os comentários nas postagens das redes sociais, ficamos com a sensação de que há uma polarização muito forte na opinião pública, dando a ideia de que a campanha eleitoral de 2018 não acabou e as pessoas continuam defendendo a sua posição política.

E essa polarização parece transformar qualquer temática em "briga", em acusações ou ofensas. Um cenário onde cada um fala o que quer e defende, fervorosamente, a sua visão de mundo.

Esse fenômeno acaba criando "bolhas digitais de opinião pública" na internet, que estimulam a falsa ideia de que todo mundo tem um lado, que a sociedade está dividida entre bolsonaristas e petistas.

Entretanto, quando se vai às ruas e se pesquisa a opinião pública de uma forma representativa, verifica-se que a grande maioria da população não se envolve nesses debates, não têm uma posição política e/ou está cansada dessa polarização, classificando os dois lados como interesseiros, radicais e/ou intolerantes. Há uma grande massa silenciosa que só observa ou ignora as polarizações.

Quando se aplica testes de ideologia política, verifica-se que 1/3 dos gaúchos não se classificam dentro do espectro ideológico, afirmam que não têm ideologia ou não sabem nada sobre o tema. Essas pessoas não têm interesse e nem o hábito de conversar sobre política, muito menos nas redes sociais. Em sua maioria, são pessoas com renda familiar inferior a três salários mínimos e com ensino fundamental.

Outra parcela, de 1/3 dos gaúchos, afirma que possui ideologia, se auto classificando mais ao "centro" (incluindo centro mais à direita e/ou a esquerda), escolhendo os números entre 4 e 6 da régua de 1 a 10 utilizada para testar o espectro ideológico do entrevistado. São pessoas que falam eventualmente sobre política, acompanham algumas informações, trocam opiniões com familiares e amigos e não têm o hábito de se manifestar nas redes sociais.

As duas pontas (direita e esquerda), que mobilizam as "bolhas digitais" das redes sociais, representam quase 1/3 dos gaúchos. Quando se analisa o perfil socioeconômico dessa população, verifica-se que eles se encontram nas diferentes faixas de idade e de renda.

Quando se sistematiza as informações sobre o comportamento da sociedade gaúcha nas redes sociais, percebe-se uma forte incidência de pessoas com opinião formada sobre determinado tema. Nesse momento, as "bolhas digitais" da internet se manifestam a favor ou contra a vacinação, externando argumentos que qualificam ou desqualificam, conforme o interesse político de quem faz a narrativa.

Mas quando se ouve a opinião pública de uma forma homogênea, verifica-se uma concordância em torno da necessidade da vacinação e a leitura é de que tanto a pandemia como a vacinação estão sofrendo com a politização, com os interesses de grupos políticos preocupados com o processo eleitoral.

A grande maioria do eleitorado não concorda e não está satisfeito com o combate político permanente nas redes sociais ou na imprensa. Para os eleitores gaúchos, o país precisa de foco para superar a pandemia e retomar a economia.

A finalidade do Estado é o bem comum, o interesse público. Essa deve ser a principal premissa dos gestores públicos, independentemente de sua visão ideológica.

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