crise do coronavírus

As 1046 vidas perdidas em Gravataí não vão ressuscitar com ’fim da pandemia’

661.960 óbitos pela covid tinham sido registrados até às 18h desta segunda-feira

De mau gosto, além de, para quem acredita, uma corrupção do Segundo Mandamento o governo Bolsonaro usar a Páscoa para decretar o fim da emergência sanitária instituída no Brasil, em fevereiro de 2020, em função da pandemia de coronavírus. As 1.046 vidas perdidas não vão ressuscitar em Gravataí.

A decisão ainda não muda o status de pandemia para endemia, posicionamento cabe à Organização Mundial da Saúde (OMS), mas o anúncio do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já ganhou abjetos contornos político-religiosos entre milícias bolsonaristas no Grande Tribunal das Redes Sociais.

Politicagem à parte, não mente Queiroga ao comemorar a queda nas infecções e mortes.

– Continuaremos a conviver com o vírus. O Ministério da Saúde permanece vigilante e preparado para adotar todas as ações necessárias para garantir a saúde dos brasileiros, em total respeito à Constituição Federal. Enfim, a saúde é um direito de todos e um dever do Estado – disse.

Mas especialistas ouvidos hoje por GZH, em “Ministro da Saúde anuncia fim da emergência sanitária por covid-19 no Brasil; confira a repercussão da decisão”, acham cedo para o anúncio.

A médica infectologista Andrea Dal Bó preferia esperar a OMS para relaxar ainda mais medidas.

– Temos praticamente toda a África ainda para vacinar, temos a emergência de variantes de preocupação, inclusive no Brasil, além de uma pequena procura pela terceira dose e, sobre tudo, uma pequena adesão à vacinação de crianças, onde temos observado um aumento das hospitalizações – alertou.

Ricardo Kuchenbecker, médico epidemiologista e gerente de risco do HCPA, concorda que há uma redução significativa das novas infecções, internações e óbitos desde fevereiro, mas enfatiza que, enquanto alguns países estiverem com menos de 40% da população vacinada, o Brasil continua tendo risco de emergência de novas cepas e novas ondas da pandemia, como foi com a Ômicron. 

À reportagem de Jhully Costa e William Mansque, o médico defendeu que o Ministério da Saúde deve continuar incentivando a vacinação com três doses contra a covid-19 e adotando estratégias de testagem e monitoramento, como os sistemas de vigilância epidemiológica das infecções que são utilizados nos Estados Unidos, em Israel e na Inglaterra:

– O Brasil precisa continuar tendo uma estratégia de testes, pelo menos para assegurar o monitoramento dessas infecções, já que a descontinuação dessa estrutura facilitada de testagem pode representar um risco se emergirem novas variantes – disse.

Já Eduardo Sprinz, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), considerou a decisão “um pouco prematura, mas aceitável”, pois o número de casos novos se estabilizou em um patamar parecido com aquele do final de 2021, e a quantidade de internados por casos graves de covid-19 está cada vez menor graças à vacinação.

– Acho que o certo seria definir isso daqui a duas semanas, como uma segurança extra, mas também não está errado neste momento, principalmente se continuarmos investindo na imunização e se tivermos medicamentos antivirais específicos e eficazes contra a covid-19 para toda a população. Com esses dois fatores, acredito que a pandemia possa ser controlada – disse.

A ‘ideologia dos números’ confirma a queda nos indicadores da covid também em Gravataí.

Em 18 de março já tinham sido registrados 34.917 casos desde o primeiro infectado em março de 2020. Reportei em Por que não tirar a máscara; Gravataí e Porto Alegre liberaram, Cachoeirinha não que a média era 3 mil casos por mês, ou 110/dia, ou 5 por hora – um pouco melhor que os 10/hora de janeiro. Nesta segunda-feira, um mês depois, são 35.613 diagnósticos, ou 696 em 30 dias, 23,2 por dia e menos de 1 a cada hora.

A média de mortes em 18 de março era de 1,1 por dia. Hoje é de 0.2. Nos últimos 30 dias 8 vidas foram perdidas. Para efeitos de comparação, a média de mortes diárias era de 6 entre março e abril de 2021, o momento mais letal da pandemia em Gravataí.

É a ‘ideologia da ciência’, o efeito da vacinação, que tem bons números. Mais de 90% dos gravataienses, ou 226.403 já tomaram pelo menos uma dose. Voltaram para a segunda dose 200.342 e para a dose de reforço 109.690.

Ao fim, de prático, o anúncio encerra o financiamento federal à covid, o que já tinha fechado leitos de UTI em Gravataí, como reportei em Gravataí terá leitos de UTI fechados; O ’fim da pandemia’.

Provavelmente também influencia no relaxamento ainda maior dos governos, com redução de testes, e da população, boa parte já desmascarada.

Já politicamente a escolha da data do anúncio, na Páscoa, foi de muito mau gosto. Para além de quem ficou com sequelas físicas e/ou psicológicas da pandemia, as 661.960 vidas perdidas no Brasil, 1.046 delas em Gravataí, não vão ressuscitar.

 

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