Saúde

CANOAS | Falta pediatra no HU: defensores do ’Estado Mínimo’ digam o que o canoense faz agora

Prefeito em exercício, Nedy de Vargas Marques convocou secretários no final de semana para discutir o caso da falta de atendimento pediátrico no HU. Foto: Guilherme Pereira/ECom PMC

Já antecipo aqui o que poucos gostariam de ouvir: está difícil conseguir pediatra para os plantões do HU e vai piorar; a lei invisível do mercado migra profissionais para onde o dinheiro está

Não é o primeiro final de semana que falta plantão pediátrico no Hospital Universitário, em Canoas – lembrando, referência em atendimento especializado para 156 cidades gaúchas. E, sinto dizer, não será o último. Infelizmente, pediatra é a mosca branca da saúde pública aqui, em qualquer capital e em todas as cidades que tenham estruturas de antendimento como Canoas tem. E a razão mundana que explica o caso não consola a mãe que leva o filho com febre na porta do HU nem o pai que relata, com legítima indiganação, a dor do filho nas redes sociais: no privado, paga-se muito melhor do que no público.

Para cada vez que um pediatra auscuta o filho de um canoense, o SUS pinga na conta da prefeitura míseros R$ 11,40. Esse é o valor de uma 'consulta especializada' de emergência não só para Canoas, mas para o Brasil inteiro. Com esforços do Estado e do próprio município, o recurso é complementado – porque médico algum passa 12h de plantão por menos de R$ 12 por consulta.

Um pediatra do SUS em Canoas renumerado pelos plantões e avanços possíveis recebe, ao final de um mês de trabalho, algo em torno de R$ 12 mil. É um bom salário se comparado a maioria das profissões que conhecemos, seja no serviço público ou em empresas privadas. Mas se esse mesmo médico dedicar-se a uma clínica particular, seus rendimentos crescem geometricamente. Quer um exemplo? Uma consulta privada com um pediatra custa, em média, R$ 250 em Canoas. Se ele atender só 10 pacientes por dia, 20 dias por mês, já põe R$ 50 mil no contra-cheque. E aí o salário do SUS já não parece nada vantajoso.

Sem falar que na clínica não é obrigado aos exaustivos plantões de final de semana nem tem que conviver com eventuais falta de materiais, medicamentos, estruturas precárias que por vezes se vê aqui e no interior do Estado até em maior escala.

No domingo pela manhã, o prefeito em exercício Nedy de Vargas Marques chamou ao gabinete os secretários interinos da Saúde, Eloir Vial, e do Planejamento, Cristina Tietbohl. Na sexta e no sábado, 20 e 21, o HU teve que suspender os atendimentos no Setor de Emergência pediátrica devido ao volume de internações inversamente proporcional ao número de médicos disponíveis. A orientação, em casos como este, é que a população procure as UPAs Rio Branco e Boqueirão, onde os atendimentos seguiram normalmente.

Os defensores do Estado Mínimo, aqueles que acreditam que o setor privado dá conta de todas as demandas, precisam explicar como fechar essa equação para uma família que recebe um ou dois salários mínimos por mês. É esse o público que só tem o SUS por retaguarda – e de quem os pediatras estão sendo deslocados em direção ao privado que paga melhor.

Em São Paulo, uma iniciativa da USP defende que a União subsidie a formação de profissionais excassos no mercado – como os pediatras -, exigindo em troca que ofereçam atendimento público para quitar o gasto com sua instrução. Uma troca simples, na verdade: horas de escola por horas de consultório. Não sei se é a melhor medida – mas é uma ideia.

Como era o 'comunista' Mais Médicos, aquele contra o qual os mesmos defensores do Estado Mínimo vociferavam impropérios até que milhares de cubanos, venezuelanos e colombianos fossem mandados embora há quatro anos. De um jeito ou de outro, não dá para passar o inverno assim, arriscando à desassistência.

No Brasil, já é costume vir primeiro a tragédia para que só depois algo mude. 

 

 

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