Conflito na Ucrânia

CANOAS | Crise no Leste Europeu: guerra de narrativas, o diálogo impossível e o Brasil no conflito

Professor de Relações Internacionais da La Salle conversou com o blog sobre o dia tenso que o mundo vive com a invasão do exército russo à Ucrânia

1. O conflito, as razões e a guerra às portas da Europa

"A invasão da Rússia ao território da Ucrânia é continuidade das tensões que o mundo viu nos últimos dias", relata o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade La Salle, Gustavo Feddersen. 

Aqui cabe uma explicação.

Vladimir Putin, presidente da Rússia, não decidiu da noite para o dia invadir a Ucrânia. Na segunda-feira, 21, ele reconheceu o pedido de independência de duas regiões ucranianas controladas por separatistas e com forte presença de etnias russas. Essas regiões, Donestk e Luhank, vem desde de 2014 enfrentando conflitos armados em nome da consolidação de uma Estado independente do governo ucraniano. Ao reconhecer a autonomia das províncias, Putin abriu caminho para invadir a Ucrânia em nome de selar a paz nas proximidades de suas fronteiras.

Uma desculpa conveniente, me parece.

"O objetivo de Putin é tornar a Ucrânia uma região desmilitarizada, semelhante ao que existe hoje entre as duas Coréias", explica o professor Feddersen. Essa medida, para os russos, seria a garantia de não haver retaliações militares – mas não exclui a possibilidade de que a Rússia pretenda retomar o território da antiga União Soviética, que incluia a Ucrânia, a Lituânia e Letônia, países que fazem fronteira com Ucrânia.

"É um momento de muita tensão. Há tropas russas sobre a Ucrânia, há guerra no Mar Negro, ações militares pelo ar e uma importante guerra de narrativas em curso", avalia o professor Feddersen. "Ainda há muitas informações desencontradas".

De qualquer forma, a ação de Putin coloca uma situação de guerra às portas da Europa – um movimento que pode ter consequências mundiais se não for contornado com eficiência.

 

2. As duas possibilidades

Para o professor Feddersen, o conflito iniciado nesta quinta-feira, 24, tem dois caminhos, ambos com consequências ainda imprevisíveis. "A primeira possibilidade é a Rússia conseguir avançar e destituir o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a constituição de um governo fantoche, vassalo à Moscou", cogita. Essa é, até agora, a hipótese mais provável.

Em termos numéricos, o Exército russo é amplamente maior do que o ucraniano. A Rússia é considera, hoje, a segunda maior potência bélica do planeta, só perdendo para os Estados Unidos. O domínio de armas nucleares colocam um grande ponto de interrogação aos limites que podem ser respeitados caso o conflito seja transformado em uma guerra sobre o território europeu.

"A segunda possibilidade acontece se a Ucrânia conseguir articular uma resposta militar à altura da iniciativa russa", aponta o professor.

Convenhamos, pouco provável.

 

 

 

 

3. O curtíssimo espaço para o diálogo

Gustavo Feddersen acredita que uma solução por vias diplomáticas está fora de alcance. "No momento, é inviável", define. "Assim que o conflito bélico for encerrado, voltam todos às mesas de negociação internacional".

Nos últimos dias, ONU, OTAN e demais países com relações diplomáticas com Ucrânia e Rússia tentaram de todos os modos garantir uma saída sem conflito. A decisão de Putin de invadir a Ucrânia, embora não tenha pego ninguém de surpresa, foi uma consequência do fracasso dessas discussões. 

À diplomacia mundial, resta esperar. Aos exércitos, é hora da prontidão.

 

4. O Brasil pode entrar no conflito?

"Militarmente, não", afirma o professor Gustavo Feddersen. "Não temos essa tradição. Já participamos de missões de paz, mas é importante lembrar que a Rússia integra o Conselho de Segurança da ONU e, portanto, tem poder de veto sobre ações da entidade na região".

"O que o Brasil pode fazer é reforçar a pressão diplomática".

 

5. Toda a guerra tem consequências

Ainda não se pode prever com precisão quais efeitos haverá no mundo e, especialmente, no Brasil a partir dos conflitos entre a Rússia e a Ucrânia – mas já dá para dizer que haverá um cachoalhada nos mercados econômicos ao redor do planeta. "No curto prazo, é cedo para prever os impactos imediatos. No médio e longo prazo, vamos ter um aumento do quadro de tensão e um enfraquecimento do comércio internacional", avalia o professor Feddersen.

No Brasil, o setor que será mais afetado por um conflito longo no eixo Ucrânia e Rússia é o do agronegócio. Daqui, exportamos para lá uma série de produtos agrícolas encabeçados pela soja. Somente em 2021, foram 768,2 mil toneladas do produto em transações que somaram US$ 343,2 milhões. De lá para cá, vem o principal insumo das fazendas brasileiras: os fertilizantes.

"Além disso, uma depressão da economia mundial também afetaria o Brasil", pontua o professor – especialmente em um momento de retomada do pós-pandemia.

 

 

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