jeane bordignon

Aventuras de jornalista

Lá pelos anos 90, o Zeca Camargo tinha um quadro no Fantástico onde a cada domingo ele visitava um país diferente. Alguns que a gente nem sabia que existia. Eu ficava fascinada e pensava “é isso que quero fazer!” Foi aí que comecei a sonhar com em ser jornalista, embora tenha me decidido pelo curso mesmo por gostar de escrever.

Mas depois que a gente entra nessa vida, descobre que poucos vão viajar como o Zeca. Pelo menos posso dizer que conheci mais a minha cidade em três anos de jornal do já conhecia nos meus 20 e poucos anos anteriores de vida. Inclusive os bairros mais precários. Daqueles que você salta uma valeta de esgoto para chegar na casa do entrevistado. E tem que descer do carro uma quadra antes, porque a rua é muito estreita para automóveis.

Aventura mesmo foi acompanhar os estragos de uma chuva de granizo em um bairro bem carente de periferia. Praticamente todas os telhados viraram peneiras. Enquanto entrevistava o pessoal da associação de moradores, eu precisava desviar das goteiras que queriam atingir meu bloco. E o pior estava por vir.

Levaram-nos até uma casa que estava com as madeiras do telhado caindo. Um poste de madeira havia sido colocado no meio da minúscula sala para segurar até que se conseguisse reformar. E obviamente a dona da casa estava apavorada com a instabilidade da casa. Quando chegamos na rua, quase desisti: era uma ladeira de puro barro, encharcado da chuva recente.

Era preciso fazer meu trabalho. Morrendo de medo de escorregar, desci com passos miúdos, acho que nem respirava direito. Conseguimos chegar ilesos, o fotógrafo e eu. Ao entrar na casinha, a situação era mesmo angustiante. Aquele teto parecia que ia desabar a qualquer momento. Não sei se consegui disfarçar que também estava com medo.

Depois ainda tivemos que subir a ladeira de barro como se pisássemos em ovos. Nem lembro direito, mas deve ter sido um alívio imenso quando finalmente sentei no carro pra voltar ao jornal. Com os calçados cheios de lama, o bloco respingado, mas sem nenhum tombo, nem teto desabando sobre a gente.

No período que trabalhei em Cachoeirinha, cidade vizinha, também tive momentos de aventura. Como no dia em que recebemos o pedido de ajuda de uma família que morava em uma ocupação… praticamente embaixo de torres de alta-tensão. Era um casal com bebê de poucos meses, não tinham para onde ir, mas estavam tomando choques em casa.

Lá fomos eu e o fotógrafo para o local, cuidando de não encostar em nada. Novamente estava naquela situação de quase não respirar. Eram várias torres, um terreno bastante perigoso. Ao mesmo tempo, dava uma tristeza ver pessoas se submetendo a viver uma área de tanto risco. E havia algumas casas ali. Fizemos a entrevista, depois entrei em contato com a companhia de energia e com a Secretaria de Assistência Social, para que a família pudesse ser encaminhada a um lugar seguro.

Uma outra ocupação de Cachoeirinha fica quase dentro do Rio Gravataí. As casas já eram construídas como palafitas, porque quando o nível das águas sobe, elas invadem as ruas. E isso tinha acontecido naquele inverno em que eu era repórter do jornal local. Grande parte dos moradores precisou ser retirado das casas e abrigado no salão de uma igreja.

Quando as águas baixaram e as pessoas puderam voltar para suas moradias, a Defesa Civil e a Assistência Social foram entregar cestas básicas. A entrega seria feita de casa em casa, para que cada família recebesse uma cesta. Em entregas anteriores, vários membros da mesma família ficavam na fila para conseguir mais alimentos. E como o rio ainda não tinha recuado de todo, a entrega seria feita de caminhão.

Juro que até hoje não sei como tive coragem, mas subi na carroceria do caminhão junto com a equipe da entrega, para acompanhar. Deve ter sido a tal da adrenalina, a gente só se dá conta depois que já está lá no alto. No início estava até tranquila, sacolejando nas vielas esburacadas e dando um jeito de me apoiar pra ir anotando as reações, pegando alguns depoimentos. O medo veio mesmo na hora de descer. Precisei de uma mãozinha do fotógrafo. Mas sobrevivi pra contar que já entrevistei até em cima de caminhão.

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