moisés mendes

As máfias da cloroquina exploram as ignorâncias

A estrutura montada em torno da cloroquina, muito mais do que a articulada pelos negociantes de vacinas, é a questão central da CPI do Genocídio.

Foi em torno da cloroquina que se articulou o negacionismo e a indústria da morte.

É muito pior do que os rolos das vacinas. As facções das vacinas trabalharam para ganhar dinheiro com a intermediação, quando o governo percebeu que a pregação da cloroquina não havia dado certo.

As pesquisas mostravam que o povo queria a vacina e que era preciso comprar imunizantes. Os grupos dentro e fora do Ministério da Saúde se articularam então para fazer as negociações. A vacina é mais um caso descarado de propina, desta vez envolvendo bilhões.

São crimes que o Ministério Público e a Justiça terão de qualificar e punir. Muitos estavam prontos para desfrutarem da vida de milionário como atravessadores de vacinas que em muitos casos nem existiam. A CPI interrompeu as negociatas.

Não foi o que aconteceu com os crimes da cloroquina. A questão da cloroquina é mais grave, porque o plano foi consumado.

As máfias do remédio milagroso misturaram ideologia, pilantragem, má fé, desinformação e ignorância para induzir as pessoas ao erro e à morte. A cloroquina foi decisiva para a engrenagem do negacionismo.

Com a cloroquina, a extrema direita tentou desqualificar as vacinas, negar socorro aos desesperados (o caso de Manaus é o exemplo mais cruel e doloroso), cooptar médicos e hospitais e enriquecer os fabricantes e seus lobistas.

A cloroquina está no contexto de todas as ações do governo, juntando os personagens que agiam dentro do Ministério da Saúde e os que participavam de fora.

É limitadora a abordagem que enquadra a cloroquina numa questão pretensamente apenas técnica, sobre eficiência ou ineficiência, danos e outras consequências do remédio e de medicamentos agregados ao kit Covid.

 

O que diz o relatório da CPI

 

“Sobram evidências científicas de que o tratamento precoce é ineficaz. Na melhor das hipóteses, é apenas inócuo. Na pior, é danoso à saúde das pessoas”.

Mas essa é uma questão vencida. A cloroquina é mais do que um debate da farmacopeia, da medicina ou da saúde pública.

O remédio impregnou a alma do negacionismo e sua distribuição só prosperou com a cumplicidade dos que acreditaram ou fingiram acreditar (e ainda fingem) que era milagroso.

A cloroquina foi usada como munição para o genocídio. O remédio que Bolsonaro defendeu na ONU está em tudo o que o governo fez, deliberadamente, para sabotar os esforços de Estados e municípios contra a pandemia.

É pouco punir os propagadores, distribuidores e receitadores de cloroquina como criminosos que atuaram contra a saúde pública.

O Ministério Público terá de ir adiante e chegar aos que lucraram com a cloroquina, mas não só os fabricantes.

O lobby do remédio do bolsonarismo é, com certeza, o mais poderoso já articulado no Brasil em torno de um medicamento usado indevidamente.

Quem ganhou o quê nessa rede de interesses? É preciso saber, ou ficaremos apenas com o que está dado até agora: que alguns disseminaram erros e desinformação, e só isso.

Não foram só erros e desinformação. Foi uma ação pensada, deliberada e executada em torno de um negócio, que só prosperou com as cumplicidades já identificadas e com as ignorâncias variadas.

Sim, a cloroquina é também o produto das ignorâncias, inclusive de muita gente com diploma. As ignorâncias, no plural, dos que, por formação precária ou porque precisavam acreditar em milagres, levaram a sério os curandeiros do fascismo.

 

Debates sem fim

Estão debatendo de novo o que é genocídio. Só falta retomarem o debate sobre o que é fascismo.

Deveríamos debater mesmo, enquanto bombardeiam o relatório de Renan Calheiros, o que é escapismo.

E aproveitar e discutir também o que é covardismo.

 

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